terça-feira, 06 outubro 2026

Investigadora defende reutilização das águas residuais tratadas como solução viável e ambientalmente sustentável

A professora universitária e investigadora Maria dos Anjos Lopes considerou  esta quarta-feira que a reutilização das águas residuais tratadas é uma solução tecnicamente viável e ambientalmente sustentável para Cabo Verde enquanto Estado insular.

 

Em entrevista à Inforpress, Maria dos Anjos Lopes assegurou que esta abordagem permite transformar um “subproduto do sistema de saneamento” num recurso com potencial para responder a diferentes necessidades, contribuindo, simultaneamente, para a protecção ambiental, a segurança hídrica e o desenvolvimento sustentável.

Conforme salientou aquela investigadora, este princípio, se enquadrada na economia circular e da gestão integrada dos recursos hídricos, no entanto, ressalvou que é fundamental estabelecer uma distinção, que “não se deve reutilizar qualquer água residual para qualquer finalidade. O princípio deve ser o de adequar a qualidade da água tratada ao uso pretendido”.

“Do ponto de vista técnico, as águas residuais podem ser utilizadas na irrigação de espaços verdes urbanos, na agricultura, na recarga artificial dos aquíferos e em determinados processos industriais, desde que sejam submetidas a tratamentos adequados e cumpram os requisitos estabelecidos pelas normas sanitárias e ambientais”, notou.

Maria dos Anjos Lopes enfatizou, por outro lado, que a reutilização da água deve basear-se numa avaliação rigorosa do risco, uma vez que contém presença de microrganismos patogénicos, compostos químicos, metais pesados ou outros contaminantes, o que exige a implementação de sistemas de monitorização permanentes, capazes de garantir a segurança da água e proteger a saúde humana e os ecossistemas.

“Enquanto pequeno Estado insular, o país enfrenta desafios estruturais associados à escassez dos recursos hídricos, à irregularidade da precipitação, à elevada variabilidade climática, ao crescimento urbano e ao aumento da procura de água nos diferentes sectores da economia”, enfatizou, realçando que a problemática da água em Cabo Verde deve ser analisada a partir de uma abordagem integrada, multidisciplinar e assente em evidências científicas.

Sublinhou que a adopção de estratégias complementares que permitam optimizar a gestão da água, promover a sua utilização eficiente e reduzir o desperdício, não deve ser encarada apenas como uma alternativa à escassez de água, mas como uma estratégia de valorização dos recursos, sustentada pelo conhecimento científico e pela adopção de boas práticas de gestão.

“Na agricultura esta solução apresenta um interesse adicional, uma vez que a água residual tratada pode conter nutrientes, como azoto e o fósforo, contribuindo para a fertilização das culturas e reduzindo a necessidade da aplicação de fertilizantes convencionais”, disse.

Ao mesmo tempo, indicou, as águas residuais podem ser utilizadas para a criação de espaços verdes nas cidades, uma prática amplamente reconhecida pela comunidade científica e encontra-se implementada em diversos países que enfrentam limitações semelhantes às de Cabo Verde.

“Na minha perspectiva, o país deve continuar a investir numa abordagem integrada do ciclo urbano da água, assente em diferentes componentes complementares, nomeadamente a dessalinização, a redução das perdas nas redes de distribuição, a melhoria da eficiência no consumo, o tratamento adequado das águas residuais e a sua reutilização segura”, defendeu.

Neste âmbito, aquela docente apontou como possíveis linhas de actuação, o reforço e a modernização das Estações de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) existentes, que na sua opinião devem ser vistas não apenas como uma infra-estrutura de saneamento.

“Devem ser vistas como uma infra-estrutura de produção de água para reutilização, recuperação de energia e valorização de nutrientes e fertilizantes, dentro dos limites de segurança ambiental e sanitária”, vincou.

Insistiu, apontando o desenvolvimento de soluções tecnológicas adaptadas às especificidades dos pequenos Estados insulares, aliado a uma educação ambiental e a sensibilização da população, sem descurar dos mecanismos de regulamentação, monitorização e fiscalização, uma vez que o país já dispõe de legislação.

“Portanto, talvez o desafio actual não seja apenas criar legislação, mas sobretudo assegurar a implementação efectiva, fiscalização, capacidade técnica e operacionalização dessas políticas”.

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Comentários

joão do rosário
29 dias atrás 15 horas atrás

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joão do rosário
2 dias atrás

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