A analista política Ana Carolina Evangelista considera que a religião influencia o voto no Brasil, mas não determina isoladamente as escolhas eleitorais, defendendo uma análise que não trate católicos e evangélicos como blocos homogéneos.
“Não é determinante, mas influencia”, afirmou a investigadora sénior do Instituto de Estudos da Religião (ISER), para quem a influência religiosa sobre o comportamento eleitoral já pode ser identificada e medida de diferentes formas.
As eleições gerais no Brasil realizam-se no domingo, 04.
A pesquisa nacional “Religião e Vida Pública no Brasil”, realizada pelo ISER em parceria com a Quaest, ouviu 15 mil pessoas presencialmente em 412 municípios, com uma margem de erro de 1%.
O levantamento mostra diferenças dentro dos próprios grupos religiosos, com fatores como raça, género, escolaridade, rendimento e região a alterarem comportamentos e posições políticas entre pessoas da mesma religião.
O Brasil tem hoje 50% de católicos e 29% de evangélicos, mas este último grupo reúne sobretudo pentecostais, além de protestantes e pessoas que se identificam como evangélicas sem pertencer a uma igreja.
“Não podemos falar de um campo católico homogéneo, assim como não podemos falar de um campo evangélico homogéneo”, disse Evangelista, que aponta diferenças nas práticas religiosas, trajetórias pessoais, opiniões políticas e posições sobre políticas públicas.
Os dados também mostram que a religião não explica sozinha as posições sobre segurança pública, já que 77% defendem prioridade para investimentos em educação e redução das desigualdades, contra 17% que preferem mais recursos para polícias e prisões.
A pesquisa indica, por exemplo, que 79% dos brasileiros apoiam a educação sexual nas escolas, índice semelhante entre católicos e evangélicos, enquanto 80% apoiam o acesso a métodos contracetivos nos dois grupos.
Para a analista política, a chamada “pauta de costumes” teve um papel central na aproximação entre setores católicos e evangélicos, sobretudo em temas como aborto, direitos sexuais e reprodutivos e identidade de género.
A pesquisadora ressalva, contudo, que essa mobilização não é exclusivamente evangélica, lembrando o papel histórico da Igreja Católica na oposição a avanços relacionados com a descriminalização do aborto e na discussão sobre a chamada “ideologia de género”.
Para Evangelista, a identificação de setores evangélicos com o bolsonarismo ganhou força desde 2018, impulsionada pela agenda de costumes e também pela associação entre corrupção e esquerda construída durante o período da Operação Lava-Jato.
A aproximação política entre setores religiosos e a direita, porém, é anterior ao ex-Presidente brasileiro Jair Bolsonaro, segundo a pesquisadora, que identifica uma organização evangélica mais sistemática na política brasileira desde a Constituinte de 1988.
Naquele período, igrejas passaram a organizar-se para eleger representantes, mobilizando o lema “irmão vota em irmão”, num movimento que Evangelista relaciona também à reação à forte presença católica na política e no Estado.
A Frente Parlamentar Evangélica seria formalizada em 2004, após a primeira eleição de Lula da Silva, apresentando-se como uma organização de oposição a um Governo de esquerda e às agendas que pretendia implementar.
Essa organização ganhou novos contornos com a disputa em torno de direitos sexuais, reprodutivos e diversidade, aproximando setores religiosos católicos e evangélicos de um campo conservador mais amplo no Congresso.
Evangelista considera que o papel central da chamada agenda moral também criou dificuldades para a esquerda dialogar com parte do eleitorado religioso, ao estabelecer um “muro de diálogo e de conversa” e de “radicalização”.
Para superar essa barreira, a pesquisadora defende atenção às questões concretas que afetam o quotidiano das famílias, como segurança, alimentação, emprego, rendimento, endividamento, em vez de limitar o diálogo “à linguagem religiosa”.
Como exemplo, a analista cita que as mulheres evangélicas apresentam maior variação eleitoral, de 2018 para 2022, quando consideradas questões que afetam diretamente as suas vidas, além da agenda moral.
“As famílias evangélicas estão inseridas na sociedade, estão inseridas no mundo, têm os mesmos dilemas sociais e políticos que todo mundo o tem”, realçou.
As eleições gerais no Brasil realizam-se no domingo, 04.
A Semana com Inforpress/Lusa

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