Benjamin Netanyahu, ou "rei Bibi", o líder que mais tempo governou Israel, joga o futuro político nas legislativas de 27 de outubro, que vão avaliar a gestão de um país em guerra mas também um homem acossado pela justiça.
Antes de uma das eleições mais incertas de sempre e com o futuro político em jogo, o chefe do Governo tem dramatizado o tom, observando que as revelações sobre as suas alegadas responsabilidades no 07 de Outubro têm origem em "rivais políticos e atores estrangeiros hostis" com o objetivo de o destronar.
O primeiro chefe do Governo nascido em Israel desde a sua fundação - e que celebra hoje o seu 77.º aniversário - tem um longo currículo no executivo, acumulando 18 anos de poder em diferentes ciclos, mas nenhum tão marcante como aquele que agora acaba.
Desde os ataques dos islamitas do Hamas em 07 de outubro de 2023, Netanyahu ficou associado ao dia mais sangrento da história do país, que desencadeou a guerra na Faixa de Gaza e várias outras frentes de conflito que o líder israelita não tenciona abandonar.
Novamente candidato pelo partido de direita Likud, as suas reiteradas demonstrações de força militar não lhe garantem porém a recondução, com as sondagens a sugerir que nem o bloco pró-governamental nem o da oposição irão conseguir uma maioria para controlar o parlamento.
Os resultados em aberto anteveem tensas negociações pós-eleitorais, um terreno em que Netanyahu tem mostrado particular habilidade, o que permitiu a viabilidade do atual Governo, numa aliança controversa com a extrema-direita e os ultraortodoxos. Ou não fosse conhecido como "rei Bibi", em alusão à alcunha de infância e à acumulação de poder.
Com fama de "falcão" mas também de polido, o primeiro-ministro é carismático entre a base do Likud, mas, no lado oposto, reúne ampla hostilidade pela forma como conduziu o país desde o 07 de Outubro. Sobretudo após as revelações, nas últimas semanas, de que terá sido avisado previamente pelos Emirados Árabes Unidos e pela "secreta" egípcia para a iminência dos ataques do Hamas, o que desmente firmemente.
Este caso, que teve efeitos sísmicos na campanha eleitoral, adensou uma nuvem sobre a reputação do dirigente israelita. Desde 2020 que é julgado por suborno, fraude e abuso de confiança em três processos relacionados com trocas de favores políticos e cobertura mediática positiva. A que se juntou o escândalo "Qatargate" sobre alegada corrupção de dois elementos do seu gabinete por parte do Qatar, país financiador do Hamas.
Depois de regressar ao Governo em 2022, Netanyahu, que se diz vítima de uma "caça às bruxas", tentou promover uma reforma judicial, motivando protestos em massa e acusações de tentativa de manipulação da justiça na chamada "única democracia do Médio Oriente". Atravessou-se o 07 de Outubro e a iniciativa ficou de lado.
Mas a sociedade civil não desapareceu. Durante a guerra na Faixa de Gaza, as mobilizações ganharam palco semanal para exigir o resgate dos 251 reféns levados pelo Hamas no 07 de Outubro, ao mesmo tempo que o líder israelita era acusado de privilegiar a sua sobrevivência política em vez de salvar vidas.
Apesar do cessar-fogo alcançado há um ano no enclave palestiniano, os ataques israelitas prosseguem, enquanto o chefe do Governo recusa as próximas etapas do roteiro proposto pelos Estados Unidos e retirar-se do território até ao completo desarmamento do Hamas, tal como do sul do Líbano e da Síria.
A forma como Netanyahu se tem posto no caminho dos esforços de paz na região do Presidente norte-americano, Donald Trump, e divergências sobre o decurso da ofensiva que ambos lançaram desde 28 de fevereiro contra o Irão, levaram o líder da Casa Branca a chamar-lhe "doido varrido" durante uma tensa conversa telefónica. Mas no domingo passado acabou por apoiar publicamente a reeleição de um "guerreiro" com o qual espera "completar a missão".
Além de perseguido pela justiça israelita, Netanyahu e o seu ex-ministro da Defesa Yoav Gallant são procurados desde novembro de 2024 pelo Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra e contra a humanidade na Faixa de Gaza.
Os números acumulados de dezenas de milhares de vítimas, associados a uma acusação de genocídio por parte de um comité independente da ONU, mas também à vaga de violência que assola a Cisjordânia nos últimos três anos e no vizinho Líbano, culminaram numa pressão crescente dos países ocidentais e árabes.
Na última Assembleia-geral da ONU (em setembro) e pelo segundo ano consecutivo, numerosas delegações abandonaram a sessão em boicote do discurso de Netanyahu, que, em resposta, desafiou os presentes: "Se ainda houver cobardes morais que não saíram da sala, podem fazê-lo agora".
Antes de uma das eleições mais incertas de sempre e com o futuro político em jogo, o chefe do Governo tem dramatizado o tom, observando que as revelações sobre as suas alegadas responsabilidades no 07 de Outubro têm origem em "rivais políticos e atores estrangeiros hostis" com o objetivo de o destronar.
Em simultâneo, adverte que os eleitores são chamados a escolher entre "a direita ou a Palestina", numa referência a uma suposta agenda da oposição de aceitar o Estado palestiniano e as retiradas militares na região.
Benjamin Netanyahu nasceu em Telavive em 1949 mas viveu durante grandes períodos com a família nos Estados Unidos, até voltar a Israel para cumprir serviço militar, chegando a capitão na unidade de elite Sayeret Matkal. Foi ferido várias vezes e quase morreu afogado durante um combate no Canal Suez em 1969.
Depois, regressou aos Estados Unidos para se graduar em Arquitetura e a seguir em Gestão de Empresas no MIT, tendo interrompido os estudos superiores para participar na guerra do Yom Kippur em 1973.
Ao assentar finalmente no seu país, fundou o Instituto Jonathan para o Estudo do Terrorismo, influenciado pela morte do seu irmão Yonni, em julho de 1976 no Uganda, durante a "Operação Entebbe", de resgate de passageiros israelitas sequestrados num voo da Air France.
Tem três filhos e cinco netos e reside em Jerusalém, coincidentemente na rua de Gaza, apresentando uma imagem vigorosa, embora afetada pela descoberta de um cancro na próstata no ano passado, que disse ter sido completamente tratado.
Ao longo da vida pública, Benjamin Netanyahu tem evidenciado o forte legado da direita israelita, que herdou do pai, Benzion, ex-assistente de Zeev Jabotinsky, líder da tendência sionista chamada "revisionista", favorável a um "Grande Israel".
O atual primeiro-ministro reconheceu identificar-se com essa visão e contribuiu para afastar os resultados dos Acordos de Paz de Oslo de 1993-1994, sobre a solução de dois Estados para o conflito israelo-palestiniano, ao mesmo tempo que promoveu o alargamento dos colonatos na Cisjordânia ocupada, acompanhado de violência crescente, na maioria dos casos impune.
Apesar disso, concluiu em 2020 compromissos de normalização de relações com países árabes (Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Sudão e Marrocos), no âmbito dos Acordos de Abraão, patrocinados por Washington, mas, mais uma vez, o 07 de Outubro interrompeu o processo.
Reconhecido orador e bastante fluente em inglês, foi também diplomata de carreira, tendo sido colocado nos Estados Unidos e depois como embaixador na ONU nos anos 1980.
Em 1996 venceu aos 46 anos o veterano Shimon Peres e tornou-se no mais jovem primeiro-ministro da história do país, que voltaria a servir noutras ocasiões como chefe do executivo e também nas pastas dos Negócios Estrangeiros e das Finanças.
Na semana passada, o homem que declarou ter um "sentido de missão histórica e espiritual" com Israel, foi evasivo sobre o seu destino em caso de derrota eleitoral.
"Pretendo ganhar e não quero entrar em hipóteses", comentou na emissora pública Kan quando questionado sobre uma saída de cena, deixando porém um aviso a quem antecipa a sua morte política: "Já fui dado como carta fora do baralho tantas vezes".
A Semana com NM/Lusa

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