O artista plástico e poeta Mito Elias quer recuperar a revista “Sopinha de Alfabeto”, publicada em 1986 e 1987, que considera uma experiência marcante na história cultural cabo-verdiana.
Mito Elias recorda, em entrevista à Inforpress, que a “Sopinha de Alfabeto” foi concebida num contexto em que os seus autores procuravam experimentar novas formas de expressão e intervenção cultural.
Ao olhar para mais de quatro décadas de actividade artística, Mito Elias identifica a “Sopinha de Alfabeto” como um dos momentos decisivos do seu percurso, pela experiência de criação e pelas circunstâncias em que o projecto foi desenvolvido.
A revista surgiu em Novembro de 1986, coincidindo com a comemoração dos 50 anos da revista “Claridade”. Seis meses depois foi publicado um segundo número, com colaborações e temáticas mais alargadas.
Apesar de terem sido editados apenas dois números, o projecto deixou, segundo o artista, “marcas profundas”.
Mito Elias recorda, em entrevista à Inforpress, que a “Sopinha de Alfabeto” foi concebida num contexto em que os seus autores procuravam experimentar novas formas de expressão e intervenção cultural.
O projecto contou com a participação de Filinto Elísio e Eurico Barros, que posteriormente partiram para os Estados Unidos, deixando Mito Elias em Cabo Verde com a responsabilidade pela eventual continuidade da publicação. Foi a partir desse momento, segundo relata, que começaram a surgir maiores dificuldades em torno da continuidade do projecto. O artista afirma que chegou a ser detido e interrogado por forças ligadas ao partido único, sob suspeita de que os autores estariam a produzir textos contra o sistema.
Trata-se de uma situação que Mito Elias recorda como parte dos constrangimentos enfrentados na época e que, na sua perspectiva, ajuda a compreender o contexto em que a revista foi produzida.
Apesar disso, afirma que a experiência permanece como uma referência importante no seu percurso.
Mito Elias reconhece que, na altura, encarou o projecto de forma “algo ingénua”, mas considera que a “Sopinha de Alfabeto” merece ser mais conhecida, até porque muitas vezes recebe mensagens de pessoas que estudam a cultura de Cabo Verde perguntando alguns detalhes sobre a revista.
Cada número da revista teve pouco mais de 200 exemplares e, durante cerca de 20 anos, a publicação esteve disponível num site de Mito Elias.
O artista admite que a possibilidade de voltar a publicar os dois números existentes e recuperar parte da memória associada ao projecto, talvez fosse ideal.
A ideia poderá passar também pela concretização de um terceiro número, que chegou a ser pensado na época, mas nunca chegou a ser impresso.
Para Mito Elias, recuperar a “Sopinha de Alfabeto” significa não apenas reeditar uma publicação antiga, mas também devolver ao presente uma experiência cultural que considera relevante para compreender uma determinada geração de criadores cabo-verdianos.
Mais de quatro décadas depois, o artista mantém a ligação à revista e à experiência que esteve na sua origem, entendendo que a sua história merece ser revisitada e integrada na memória cultural do país.
A possibilidade de republicar os dois números existentes e, eventualmente, concretizar o terceiro projecto representa, assim, uma nova etapa para uma publicação que nasceu em 1986, teve apenas duas edições e continua, segundo Mito Elias, a guardar “marcas profundas”.
A Semana com Inforpress

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