sábado, 25 julho 2026

Santiago Norte: Medicina tradicional mantém espaço nas comunidades entre herança ancestral e complemento aos cuidados de saúde

Presente nos mercados, cutelos e ribeiras, a medicina tradicional continua a ocupar um lugar importante em Cabo Verde, preservando saberes ancestrais, atraindo cada vez mais procura e coexistindo, hoje, com a medicina convencional. A medicina tradicional continua a fazer parte do quotidiano de muitas famílias cabo-verdianas. De norte a sul do arquipélago, é comum encontrar nos mercados municipais bancas com folhas secas, raízes, sementes, cascas, resinas e outros produtos naturais destinados à preparação de chás, infusões, xaropes e banhos medicinais. Em Santiago Norte, esta realidade é igualmente visível. Em vários municípios, sobretudo nas localidades mais afastadas dos centros urbanos, em cutelos e ribeiras, homens e mulheres preservam conhecimentos transmitidos oralmente ao longo de gerações. A procura por estes remédios aumenta em determinadas épocas do ano, particularmente durante períodos de gripes, constipações e outras doenças sazonais, mas também por pessoas que procuram alternativas naturais para aliviar pequenos problemas de saúde. Apesar dos avanços da medicina moderna, muitos cabo-verdianos continuam a recorrer aos chamados “remédios de terra”, não apenas pela acessibilidade, mas também pela confiança depositada em práticas herdadas dos pais, avós e bisavós. Hoje, contudo, o olhar sobre a medicina tradicional é diferente. Se outrora era vista apenas como recurso das populações rurais, é actualmente reconhecida por muitos profissionais de saúde como um património cultural relevante, desde que utilizada de forma responsável e complementar aos cuidados médicos convencionais. Para compreender como estes conhecimentos continuam vivos, a Inforpress ouviu três mulheres que representam diferentes formas de preservação destes saberes. Aos 97 anos, Isaura Correia guarda na memória ensinamentos adquiridos ainda jovem em São Tomé e Príncipe, onde viveu durante vários anos. Antiga parteira, aprendeu a identificar plantas medicinais e a preparar remédios para anemia, tosse persistente, tuberculose, limpeza do útero e algumas enfermidades infantis. “Aprendi tudo lá. Fazia remédios, ajudava mulheres a dar à luz e fui guardando o conhecimento. Até hoje ainda me procuram pessoas de Cabo Verde e do estrangeiro”, conta. Isaura acredita na eficácia das plantas medicinais, mas sublinha que o acompanhamento médico é indispensável. “Hospital é para médico. Nós fazemos remédios de terra, mas as pessoas devem procurar sempre os serviços de saúde. E não se deve misturar remédios naturais com medicamentos da farmácia”, aconselha. Em Assomada, Maria Nascimento Brito dedica-se apenas à comercialização de produtos naturais, alguns provenientes da Guiné-Bissau. Entre os mais procurados figuram folhas de abacateiro, gengibre, erva-doce, sangue-de-dragão, folhas de oliveira, sal grosso e outras espécies tradicionalmente utilizadas para auxiliar no controlo da diabetes, hipertensão, colesterol e problemas digestivos. “Eu apenas vendo os produtos. As pessoas levam aquilo que procuram, mas sempre aconselho a fazer acompanhamento médico”, afirma. Já em São Miguel, Domingas Teixeira representa uma geração mais jovem interessada em manter viva uma prática aprendida com a avó e transmitida pela mãe. Continua a preparar chás e xaropes exclusivamente com produtos naturais, encarando a medicina tradicional como parte importante da identidade cabo-verdiana. Embora sejam frequentemente as mulheres a assumir a preservação destes conhecimentos, a medicina tradicional permanece como um património coletivo das comunidades cabo-verdianas, transmitido entre familiares, vizinhos e curandeiros populares. Entre folhas, raízes e infusões, resiste ao tempo, adapta-se aos novos olhares sobre a saúde e continua a ocupar um espaço significativo na vida de muitas famílias, numa convivência cada vez mais próxima com a medicina convencional. Em comum, as três defendem uma utilização responsável da medicina tradicional, recomendando sempre a consulta dos serviços de saúde e desaconselhando a toma simultânea de remédios naturais com medicamentos farmacêuticos sem orientação adequada. A Semana com Inforpress
Ocultar formulário

5000 caracteres restantes


Colunistas

Léo Rosa de Andrade
Léo Rosa de Andrade
21 Jul. 2026
SOBRE ESTAR SÓ
Sei que há muito palpite sobre a solidão. Altemar...
José João Neves Barbosa Vicente
José João Neves Barbosa Vicente
21 Jul. 2026
 “TUBARÕES AZUIS”: A REPRESENTAÇÃO DE UM POVO
A atuação dos “Tubarões Azuis” contribui para inspirar crianças,...
Alexandre Vieira Fontes
Alexandre Vieira Fontes
21 Jul. 2026
Justiça social, racionalidade orçamental e o papel...
A vitória eleitoral de Francisco Carvalho e da plataforma...
Péricles Tavares
Péricles Tavares
12 Jun. 2026
Carta Aberta ao novo Primeiro-Ministro:Responsabilidade de unir...
Estamos convictos de que, sob a sua liderança, Cabo...
Domingos Landim de Barros
Domingos Landim de Barros
03 Jun. 2026
Radiografia da minha eira
Algo que, com todo o preito, se assemelha à...

Comentários

Miranda
18 dias atrás

Boa sorte

Rocha Pereira
11 dias atrás

Em nome do sr esse homem e mesmo o que Cabo Verde não merece por que se verdade mesmo por que são filhos do coitado p ...

Miranda
16 dias atrás

Em Africa,andamos a brincar aos golpes de estado ; tornou-se um divertimento esquematico, estratégico e diabólico. . Que ...

Pub-Reportagem

publireport