domingo, 04 outubro 2026

O dia em que Salazar avançou com o Tarrafal e a memória dos que nele penaram

“Tarrafal – Presos Políticos e Sociais (1936-1954 e 1961-1974)” é o nome do livro coordenado por Alfredo Caldeira e João Esteves e que será apresentado na terça-feira, em Lisboa, uma data que não foi escolhida ao acaso.

“O campo de concentração do Tarrafal é o exemplo maior que resultou da ditadura implantada em 28 de maio de 1926 e foi por isso que escolhemos a data. Não é celebrar o 28 de maio, é mostrar o que resultou do 28 de maio, que foi a criação de um sistema prisional, não só no país, mas nas colónias, que levou à prisão de milhares e milhares de pessoas”, disse Alfredo Caldeira à agência Lusa.

No ano em que se celebra os 50 anos do 25 de Abril e da libertação dos presos políticos em Portugal e nas ex-colónias e o encerramento do Campo de Concentração do Tarrafal, no dia 01 de Maio de 1974, este livro pretende “dar informação tão completa quanto possível sobre os presos, mais do que a circunstância da construção e manutenção do campo”.

“Os presos eram uma coisa que muitas vezes passava ao lado. Falava-se de números, mas mesmo esses números muitas vezes não estavam certos, mas os presos não são números, são pessoas concretas, melhores ou piores, que aguentaram com maior ou menor força a situação em que estiveram e que chegou, em alguns casos, aos 17 anos de prisão”, disse.

Os autores quiseram “assegurar o maior numero possível de informação bibliográfica sobre os presos e, por outro lado, abranger as duas fases do campo”.

Instalado em Cabo Verde em 1936, o campo funcionou até 1954, essencialmente destinado a presos políticos antifascistas deportados de Portugal. Reaberto em 1961, sob a designação de Campo de Trabalho de Chão Bom, acolheu até 1974 nacionalistas de Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde.

Aí foram encarcerados, na sua maioria sem julgamento, um total de 588 homens, morrendo 36 deles, vítimas das condições prisionais impostas pelo regime fascista.

O principal objetivo dos investigadores na elaboração deste livro foi “prestar informação, mais do que a descoberta de grandes novidades, embora elas tivessem surgido, como a descoberta do dia exato em que Salazar se reuniu, decidiu e despachou as verbas necessárias para a construção do campo”, o que aconteceu em 08 de outubro de 1935.

“Há muitas histórias que agora podem ser aprofundadas, designadamente os vários projetos que o regime encarou para este campo. Houve projetos para outras ilhas de Cabo Verde, construção de campos de concentração noutras ilhas”, disse Afredo Caldeira, lembrando que, em 1931, existiu na ilha de São Nicolau um campo de concentração de presos políticos.

E assegurou: “Importa recuperar a memória daquela gente que ali esteve encarcerada e que ali morreu e foi isso que tentámos fazer”.

O livro “Tarrafal – Presos Políticos e Sociais (1936-1954 e 1961-1974)” (edições Colibri) será apresentado na Torre do Tombo, em Lisboa.

 

A Semana com Lusa

Colunistas

Alexandre Vieira Fontes
Alexandre Vieira Fontes
18 Sep. 2026
Filomena Silva: uma jornalista de coragem e...
Léo Rosa de Andrade
Léo Rosa de Andrade
31 Aug. 2026
A ÉTICA DO DESINTERESSE, A VIDA EM...
César Augusto G. Garcia
César Augusto G. Garcia
21 Aug. 2026
COISAS DO ESTADO ou ESTADO DE COISAS...

Comentários

joão do rosário
28 dias atrás 2 horas atrás

SENHOR PRESIDENTE, DEIXE-SE DE TRETAS: NÓS SABEMOS QUEM O SENHOR É José Maria Neves vem agora dizer que é “muito melho ...

jcf
29 dias atrás 19 horas atrás

Cabo Verde tem uma facilidade extraordinária para comentar o que se passa na casa dos outros. Guiné-Bissau, Angola, Moçamb ...

joão do rosário
1 dias atrás

Isto já parece gozo. 177 casos desde o início do ano e já estão outra vez a sacudir o fantasma da pandemia. Sem números ...

Pub-Reportagem

publireport