terça-feira, 29 setembro 2026

Estudo da Uni-CV revela “conhecimento superficial” de profissionais de saúde sobre mutilação genital feminina

A informação foi avançada pela investigadora e professora da Uni-CV Deisa Semedo, que é investigadora do Centro de Investigação em Género e Família (CIGEF).

A mesma fonte explicou que o estudo foi realizado nas ilhas com maior concentração de comunidades imigrantes, nomeadamente Sal, Santiago, São Vicente e Boa Vista, e incluiu também visitas técnicas a Portugal com o objectivo de compreender melhor a realidade e apoiar a metodologia da investigação.

O inquérito envolveu profissionais de saúde, sobreviventes, mulheres cabo-verdianas, imigrantes e companheiras de imigrantes, e permitiu identificar casos de mulheres que foram submetidas à mutilação nos seus países de origem, sobretudo entre comunidades imigrantes residentes em Cabo Verde.

Segundo a investigadora, de forma geral, o desconhecimento sobre a mutilação genital feminina é significativo, sendo o nível de conhecimento considerado superficial entre os profissionais de saúde.

“Há uma necessidade urgente de mais formação para garantir uma melhor resposta do sistema de saúde”, afirmou.

O estudo revelou ainda que, entre outros grupos analisados, algumas mulheres e companheiras de imigrantes têm alguma noção sobre a prática, mas desconhecem os impactos profundos que esta provoca na saúde física, psicológica e social das vítimas. 

As organizações não-governamentais apresentaram igualmente lacunas de conhecimento sobre o tema, segundo a mesma fonte.

Deisa Semedo destacou também o desconhecimento generalizado da legislação nacional sobre a mutilação sexual, que abrange qualquer procedimento não indicado clinicamente, tanto em mulheres como em homens.

“A falta de conhecimento da lei pode levar a comportamentos errados e dificulta a protecção das vítimas”, alertou.

A investigadora explicou que o estudo não avançou dados de prevalência em Cabo Verde devido à sensibilidade do tema e à dificuldade em obter informação directa das vítimas, muitas das quais não reconhecem a prática como violência.

Sobre as motivações para a prática, o estudo apontou factores culturais como predominantes, incluindo o controle da sexualidade feminina, normas de género, pressão social e interpretações religiosas, apesar de não haver fundamentação em textos sagrados.

Entre as consequências identificadas estão riscos imediatos como hemorragias, infecções sexualmente transmissíveis, tendo em conta que o mesmo material cortante é usado em várias meninas, e morte, além de complicações a longo prazo, incluindo infertilidade, dores crónicas, problemas psicológicos e complicações durante o parto.

Segundo Deisa Semedo, nenhuma das mulheres cabo-verdianas entrevistadas foi submetida à prática, embora algumas tenham relações com parceiros provenientes de países onde a mutilação genital feminina é culturalmente enraizada.

Esclareceu que a mutilação genital feminina é todo procedimento de retirada parcial ou total de órgãos da zona genital feminina sem motivo clínico.

Explicou ainda que, em muitos países onde existe esta prática, a mutilação é tida como rito de passagem de criança para mulher, sendo feita até aos 15 anos, embora a maior parte ocorre por volta dos 10 anos.

Nessas sociedades, segundo Deisa Semedo, quem não é submetida a este rito de passagem é estigmatizada pelo seu grupo cultural, pela sua comunidade, correndo o risco de não se casar. 

Acrescentou que a mutilação é vista como uma forma de controle da sexualidade feminina.

“O objectivo é fazer um controle da sexualidade da mulher. Eles consideram que uma menina que não foi submetida à mutilação genital acaba por não ser tão pura nem digna de se casar com um homem dessa cultura”, arrematou.

A Semana com Inforpress

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Comentários

joão do rosário
23 dias atrás 6 horas atrás

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jcf
24 dias atrás 23 horas atrás

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joão do rosário
27 dias atrás 5 horas atrás

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