terça-feira, 29 setembro 2026

Unicef alerta para múltiplos desafios no apoio pós-cheias em Moçambique

"As cheias tiveram um impacto devastador no acesso à água potável, saneamento e higiene. Sistemas de abastecimento de água foram submersos e contaminados, com equipamentos elétricos danificados, poços foram contaminados por águas superficiais que transportam matéria fecal e outros contaminantes, latrinas colapsaram ou transbordaram, e infraestruturas de saneamento básico foram destruídas", disse hoje à Lusa Omar Khan, responsável do projeto de Água, Saneamento e Higiene da Unicef em Moçambique.

Segundo o responsável, em muitas comunidades afetadas pelas chuvas dos últimos meses no país, as famílias passaram a recorrer a fontes de água inseguras, o que para as crianças, que são biologicamente mais vulneráveis, representa graves riscos de desenvolvimento de doenças como a diarreia, que continua a ser uma das principais causas de mortalidade infantil, a cólera, uma das maiores preocupações daquele fundo para infância, além da malária, infeções de pele e doenças respiratórias associadas à exposição e às más condições de habitação.

"Nos centros de acomodação, onde se concentram milhares de pessoas, a pressão sobre as infraestruturas de água e saneamento é enorme, e qualquer falha transforma-se rapidamente num risco sanitário coletivo", alertou, assinalando o papel "absolutamente central" da prevenção através de água segura, saneamento adequado e promoção da higiene. 

Reconhecendo a insuficiência da resposta face às necessidades registadas principalmente nas províncias de Gaza, Maputo, Sofala, Zambézia e Inhambane, Omar Khan destacou o apoio prestado por aquela agência das Nações Unidas no fornecimento de produtos para tratar sistemas de água e purificar o abastecimento, na disponibilidade de água potável aos centros de acomodação e na instalação de latrinas de emergência para evitar a contaminação fecal do ambiente.

"O Unicef necessita de 34 milhões de dólares [28,8 milhões de euros] nos próximos seis meses para chegar a 450.000 pessoas --- incluindo 225.000 crianças --- com serviços essenciais de água, saneamento, saúde, nutrição, educação, proteção infantil e assistência financeira. Sem esses recursos, teremos de fazer escolhas difíceis sobre quem é prioritário, quando todos são prioritários", acrescentou.

Cláudio Julaia, especialista em Emergências da Unicef, explicou que com mais de um milhão de afetados, sendo metade crianças, Moçambique atravessa agora uma crise humanitária de grande escala "com um rosto profundamente infantil" e num país onde a idade média é de 17 anos, "uma crise desta magnitude compromete o futuro de uma geração inteira".

A crise, alertou, pode ter impactos duradouros no desenvolvimento e proteção das crianças, desde perdas prolongadas de escolaridade a atrasos de crescimento irreversíveis, aumentando o risco de retrocessos nos indicadores de sobrevivência infantil no país.

"A subnutrição é uma preocupação central. Mesmo antes destas cheias, mais de uma em cada três crianças moçambicanas com menos de cinco anos já sofria de atraso no crescimento, e cerca de uma em cada seis apresentava desnutrição aguda. As cheias agravam drasticamente este quadro", assinalou.

Face à crise, a Unicef Portugal lança hoje um apelo de recolha de fundos para ajudar as crianças e famílias vítimas das cheias em Moçambique.

O número de mortos na atual época das chuvas em Moçambique ascende a 311, com 1,07 milhões de pessoas afetadas, desde outubro, 24.229 casas parcialmente destruídas, 11.996 totalmente destruídas e 209.219 inundadas, com um total de 304 unidades de saúde, 109 locais de culto e 764 escolas afetadas em menos de seis meses, segundo atualização de 31 de março do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD).

A Semana com Inforpress/Lusa

Colunistas

Alexandre Vieira Fontes
Alexandre Vieira Fontes
18 Sep. 2026
Filomena Silva: uma jornalista de coragem e...
  Filomena foi uma jornalista de gabarito, dotada de um...
José Rodrigues
José Rodrigues
07 Sep. 2026
Cabo Verde na Vanguarda da Nova Economia:...
A indicação do líder da operadora concessionária deve basear-se...
Léo Rosa de Andrade
Léo Rosa de Andrade
31 Aug. 2026
A ÉTICA DO DESINTERESSE, A VIDA EM...
A cultura do ódio trazida para a vida pública...
César Augusto G. Garcia
César Augusto G. Garcia
21 Aug. 2026
COISAS DO ESTADO ou ESTADO DE COISAS...
Relevar dignidade deste país é fazer com que o...
Tony Miranda
Tony Miranda
21 Aug. 2026
A Inflação do Prestígio: Como a Obsessão...
Esta inflação sistémica de títulos está longe de ser...
Péricles Tavares
Péricles Tavares
03 Aug. 2026
Editorial Analítico — A Década de Conflito...
A política cabo-verdiana viveu, nos últimos dez anos, uma...

Comentários

joão do rosário
23 dias atrás 6 horas atrás

SENHOR PRESIDENTE, DEIXE-SE DE TRETAS: NÓS SABEMOS QUEM O SENHOR É José Maria Neves vem agora dizer que é “muito melho ...

jcf
24 dias atrás 23 horas atrás

Cabo Verde tem uma facilidade extraordinária para comentar o que se passa na casa dos outros. Guiné-Bissau, Angola, Moçamb ...

joão do rosário
27 dias atrás 5 horas atrás

Isto já parece gozo. 177 casos desde o início do ano e já estão outra vez a sacudir o fantasma da pandemia. Sem números ...