No âmbito do “Março, Mês da Mulher”, a Inforpress percorreu o caminho contrário das celebrações que o mês acarreta, trocando o luxo dos jantares em hotéis de primeira e perfume das flores, pela dura realidade dessas três mulheres que vivem à "margem" do desenvolvimento, em barracas de materiais precários, fumo da lenha, rodeadas de entulhos e cheiro de esterco.
Belita, Olívia e Bitina, três mulheres naturais de Santiago residentes na Boa Vista, não receberam flores em Março, mas como todos os outros dias, erguem o seu próprio monumento à sobrevivência, carregando baldes de água, lidando com a falta de saneamento e tentando proteger o que resta da sua dignidade num ambiente que a sociedade prefere não ver.
Ângela Cabral, a "Belita", de 46 anos, é uma das faces desta realidade. Vive num ritmo acelerado, como se tentasse fugir do próprio destino.
Há nove anos na Boa Vista, trocou o bairro da Boa Esperança pela "Pocilga" para fugir aos vícios e conflitos, mas encontrou novos fantasmas.
Belita relatou ter sido vítima de violação na sua própria habitação há cerca de dois anos, um crime que, segundo afirma, continua sem justiça e a faz temer ficar sozinha na sua barraca.
Trabalha em limpezas, e descreve um quotidiano marcado pela urgência e pela falta de saneamento. Sem casa de banho, recorre a baldes e a "tchada" para as suas necessidades, o que tem provocado problemas de saúde recorrentes.
Mesmo perante a precariedade, Belita não abdica da vaidade, desfilando vestidos e bolsas como um escudo contra a escassez.
Afirma que a sua alegria é um escudo contra a fome e que o seu sonho é simples é vender o "chão" que possui na Barraca para conseguir comprar passagem para viajar para o exterior.
A poucos metros, o cenário muda na barraca de Olívia Correia, de 64 anos, que está, há dois anos na ilha com o seu marido, é o retrato da resistência silenciosa.
Transformou a sua barraca num espaço de ordem, com o chão coberto de esteiras e vasos de plantas. “Vamos onde a nossa situação permite”, explica com uma aceitação resignada.
Com problemas de hipertensão e dificuldades de locomoção, a senhora encontra-se na inércia burocrática, sem conseguir o atestado de pobreza necessário para medicamentos gratuitos.
O cheiro intenso da zona causa-lhe enxaquecas constantes, mas Olívia recusa-se a perder a fé, oferecendo plantas a quem a visita como gesto de "morabeza" e o seu maior desejo é de uma casa pequena com uma casa de banho real para passar os seus últimos dias em paz.
Ernestina Silva, a "Bitina", diz ter entre os 50 e 60 anos, foi a primeira a fixar-se na zona, mesmo depois de avisada pelos moradores que esse lugar sujo não era para mulher, construiu o seu lar.
Já perdeu animais em incêndio e peste suína, mas recomeça sempre a sua criação de porcos pequenos.
Sem electricidade, utiliza a geleira como armário e vive num ciclo de compras diárias para que a comida não se estrague.
Bitina carrega uma dor antiga de uma violação na adolescência não punida. Na sua sabedoria popular, ela distingue o pecado da agressão, defendendo que os homens devem amar as mulheres, elas devem ser respeitadas e trabalhadoras.
Trabalho essa é a sua maior alegria. Ao contrário das vizinhas, Bitina gosta da “tranquilidade do lugar” e sonha com sua casa e a urbanização daquela zona.
Estas três mulheres são o rosto de uma Boa Vista e Cabo Verde que não aparece nos catálogos turísticos.
São mulheres que não recebem flores da vida, mas, ainda assim, podem sorrir, sonham, têm fé e batalham todos os dias porque, como disse Dona Olívia, "coisas que gostamos não desistimos".
E elas, claramente, não desistiram da vida.
A Semana com Inforpress

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