quarta-feira, 30 setembro 2026

ENTREVISTA/Neusa Correia Lopes: A voz pioneira que inscreveu Cabo Verde na literatura da pandemia e da Inteligência Artificial

Figura multifacetada, enquanto escritora, investigadora e professora, Neusa Lopes revela uma mulher de acção, dividida entre a precisão da ciência e a sensibilidade da poesia, e no vasto campo da investigação científica em África, o seu nome surge com o selo do pioneirismo.

Embora escreva desde jovem, Neusa estreou-se formalmente no mundo literário em 2020 e, desde então, a sua produção tem sido prolífica e marcada pela urgência dos tempos actuais.

Numa era marcada por transformações globais sem precedentes, a escritora e professora universitária assume um título que carrega com orgulho e responsabilidade, já que é a primeira, e até agora a única, mulher cabo-verdiana e no continente africano a transpor para o livro as complexidades da pandemia e da Inteligência Artificial (IA).

As suas obras não são apenas registos académicos, são marcos históricos que atravessaram o Atlântico e hoje integram o acervo da prestigiada Biblioteca do Congresso, dos Estados Unidos, em Washington DC.

“Fiz investigações dentro e fora dos Estados Unidos, entrevistei médicos e directores universitários. Sei que estou a ajudar o nosso sistema educativo nesta nova era”, comentou.

Entre os seus títulos de maior impacto, destacam-se a análise da educação no espaço virtual durante o confinamento e o livro “Artificial Intelligence: The Impact of the Emotional Sadness, Heartbroken Syndrome”, onde explora a intersecção entre a tecnologia de ponta e a fragilidade emocional humana.

Em entrevista à Inforpress, no momento em que se assinala o Dia da Mulher Cabo-verdiana, celebrado a 27 de Março, Neusa explicou que esta sua inclinação para a escrita, literatura, investigação, não foi um acidente, mas um “dom” que se manifestou na adolescência e se consolidou numa disciplina quase monástica.

“Sinto-me orgulhosa por ser uma mulher cabo-verdiana, pioneira em África, a escrever sobre a pandemia e a inteligência artificial, e uma das pioneiras também nos Estados Unidos, que escreveu ‘Educar durante a pandemia’”, exterioriza a investigadora que, durante a crise sanitária e humanitária, sentiu-se “forçada” a seguir a escrita para não perder o fio da velocidade tecnológica.

O seu processo criativo é singular, regista-se, conforme confessou, no silêncio da madrugada, no seu escritório.

Caso para dizer que quando o mundo dorme Neusa investiga e escreve, transformando experiências profissionais e convivências com alunos em prosa científica e poética.

Esse compromisso é tão visível que até a sua neta, Olívia, conforme narra, ao desenhar a família, retratou a avó invariavelmente sentada a uma secretária, a escrever.

“Escrevo pela madrugada. Não escrevo de dia, nem à tarde.  Apesar da absorção que a carreira exige, a minha família vem primeiro. Temos momentos de risos e viagens. Mas eles vêem em mim essa entrega… dizem que até a dormir estou a escrever”, revelou.

Para além dos algoritmos e da ciência, a escritora, professora e investigadora, tudo numa só pessoa, é uma fervorosa defensora da autonomia feminina, definindo-se numa conversa franca, como uma mulher que preza a independência acima de tudo.

“Sou uma mulher que vive debaixo das suas próprias leis. Sendo independente, a mulher é forte e tem capacidade de lidar com a sua própria existência”, reiterou a investigadora, para quem ser uma mulher de ciência em Cabo Verde ainda é um acto de resistência.

A mesma fonte, que define a mulher cabo-verdiana como “resistente e resiliente” alerta, no entanto, para a necessidade de uma mudança cultural na forma como a mulher pensa sobre si mesma, incentivando-as a ter voz e a ocupar espaços de liderança.

Com o coração na diáspora e a alma nas ilhas, a trajectória de Neusa Lopes é também marcada por uma diplomacia civil activa, tece uma ponte constante entre os Estados Unidos e Cabo Verde.

Ao longo dos anos, coordenou intercâmbios entre escolas de Cabo Verde (Praia e Sal) e os Estados Unidos (Rhode Island), trouxe médicos americanos para rastreios de saúde no arquipélago e liderou campanhas de apoio durante crises como a epidemia de Dengue e a tempestade Erin.

Actualmente colaborando com a Direcção Nacional de Educação, Neusa não descansa sobre os louros do passado, estando a preparar uma nova e “delicada” investigação sobre a comunidade cabo-verdiana nos EUA, que deverá ver a luz do dia no próximo ano.

A mensagem que deixa aos jovens e às mulheres é directa e inspiradora: “Never give up”, (nunca desista), enfatizando que o sonho só se torna realidade quando se tem a coragem de ser o primeiro a escrever a história.

A produção literária e científica de Neusa Lopes é um reflexo directo das suas investigações entre Cabo Verde e os Estados Unidos.

Eis as obras que compõem o seu percurso:

- Enigma (2020): A obra de estreia. Uma autobiografia densa onde a autora narra a sua trajectória de vida e as fundações do seu pensamento crítico;

 - Educar Durante a Pandemia – Educação & Tecnologia: Um estudo comparativo pioneiro que analisa os desafios da "Sala de Aula Tradicional versus Espaço Virtual" num momento de ruptura global;

- Educar o nosso Psicoemocional e Social: Uma análise sensível sobre o impacto do uso das máscaras e as consequências do isolamento no desenvolvimento social humano;

- Artificial Intelligence: The Impact of the Emotional Sadness: Integrante da sua mais recente investigação, esta obra mergulha no “Heartbroken Syndrome” e em como a tecnologia de ponta molda as nossas emoções;

- Trilogia (2025), lançada no Tech Park de Cabo Verde, esta colecção de investigação diversa consolida o seu papel na vanguarda do pensamento tecnológico e da saúde mental;

- Revista “Invisible”: Uma publicação periódica de cariz educacional e científico, que serve de plataforma para dar visibilidade a temas muitas vezes omitidos no debate público.

Neusa Lopes não apenas escreve sobre o futuro, mas ajuda a construí-lo, garantindo que a voz de Cabo Verde ressoe nos centros mais importantes do saber mundial.

 

A Semana com Inforpress

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Comentários

joão do rosário
23 dias atrás 10 horas atrás

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jcf
25 dias atrás 3 horas atrás

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joão do rosário
27 dias atrás 9 horas atrás

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