quarta-feira, 30 setembro 2026

Situação no Médio Oriente: "A maior preocupação é que a guerra se prolongue"

Em retaliação, o Irão está a levar a cabo ataques contra vários países da região. Esta manhã, pelo terceiro dia consecutivo, foram ouvidas explosões no Catar. Várias pessoas ficaram feridas e o espaço aéreo continua encerrado.

A RFI falou com Vasco Leitão, português a viver há dois anos no Catar. Este jovem, de 32 anos, continua retido em Doha devido à suspensão dos voos. Este português, que trabalha na área da hotelaria, no Catar, explica que estão todos um pouco apreensivos no país e relata-nos qual é o sentimento dominante por estes dias.

RFI: Como é que tem vivido os acontecimentos das últimas horas aí no Catar, país que também foi visado por mísseis iranianos?

Vasco Leitão: Tem sido uma situação estranha e sempre a evoluir. Eu acho que aqui já tivemos uma situação no ano passado, em junho, quando tivemos também alguns mísseis que foram interceptados, mas desta vez está bastante diferente. Da outra vez, as coisas fecharam, o espaço aéreo fechou. Passado um bocadinho, houve um lançamento dos mísseis, depois voltaram a abrir o espaço aéreo. Foi tudo uma coisa de cerca de 8 horas. Agora, o sentimento de toda a gente aqui é bastante diferente. E especialmente agora, entrando no terceiro dia, em que estamos a ver que só está a piorar e não a melhorar... Estamos todos um bocadinho apreensivos.

RFI : E não teve receio de que os estilhaços dos mísseis afectassem a zona onde vive?

Vasco Leitão: Não muito. Nós temos visto onde é que têm caído e tem sido tudo muito longe. A base aérea americana também é bastante longe das zonas residenciais, portanto, aqui onde estamos, estamos relativamente protegidos dos estilhaços. Não tem caído nada aqui perto da nossa zona.

RFI: Que indicações é que têm recebido por parte das autoridades? Têm sido devidamente acompanhados? Como é que tem funcionado todo este processo?

Vasco Leitão: Sim. O Catar é muito, muito organizado e muito avançado na parte digital. Portanto, temos updates (atualizações) quase de 15 em 15 minutos através das redes sociais e dos canais oficiais. Temos também um grupo de WhatsApp com a embaixada onde a embaixada portuguesa vai pondo as atualizações, talvez duas ou três vezes por dia, mas através das redes sociais é bastante fácil estar a par de tudo o que se vai passando.

RFI: E o Vasco dizia-me que que já vive aí há dois anos. Já conhece certamente muita gente, já tem muitos amigos aí. Como é que a população está a reagir a tudo isto?

Vasco Leitão: Eu acho que calmamente. Acho que aqui no Catar nós estamos habituados a sentirmo-nos seguros e acho que temos todos muita confiança nas autoridades e especialmente na organização do país e, portanto, sabemos que, dentro do possível, é dos melhores sítios para se estar. E aqui eu acho que está tudo muito calmo, está tudo a fazer planos, está tudo a acompanhar as situações e a ver realmente o que é que poderá acontecer porque é muito imprevisível.

RFI: E nota alguma diferença na rotina habitual das pessoas? Houve avisos para fazerem compras antecipadas, alguma coisa deste género a acontecer?

Vasco Leitão: Não, nada disso. Aliás, o Catar faz o contrário que é anunciar que todos os supermercados e lojas vão estar abertos 24 horas por dia. Anunciaram também que não havia qualquer tipo de problemas na entrada de bens e comida no país e que, portanto, havia stock de tudo para ninguém se preocupar. Referiram que, por precaução, estariam todos os supermercados abertos 24h, portanto, não houve corridas às lojas, não houve corridas aos supermercados. Foi tudo relativamente tranquilo. Nesse sentido, eu consegui perfeitamente ir ao supermercado, comprar água e comprar comida, sem qualquer problema. E as plataformas de entrega em casa também estão a funcionar em pleno. Portanto, não houve assim grande alteração.

RFI: O Vasco estava a dizer-me que que a população está a reagir com calma. Sente que existe de alguma forma um sentimento de maior união agora por parte da população, num momento em que estão a enfrentar uma crise como esta e num momento em que o futuro é imprevisível?

Vasco Leitão: Eu acho que sim. O Catar é um país pequeno e nós somos todos expatriados aqui, ou quase todos. Portanto, já de si é normal haver este sentido de união porque estamos todos fora do nosso país. Estamos todos aqui. Portanto, acho que nesta altura claro que sim. Tem sido esse o sentimento.

RFI : Existe preocupação aí no país, de que a guerra possa prolongar-se e afectar mais directamente a vida no Catar, neste caso Doha?

Vasco Leitão: Isso acho que é a maior preocupação, realmente, porque lá está, no ano passado, quando tivemos aqueles pequenos incidentes, foi uma coisa de poucas horas e não gerou grande preocupação. Até as pessoas em Portugal ligavam a perguntar se estava tudo bem. E nós aqui muito, muito tranquilos. Desta vez, apesar de continuarmos tranquilos, acho que há uma preocupação muito maior das proporções que isto pode tomar e especialmente do tempo que pode levar a estar resolvido. O espaço aéreo está fechado. Acho que tudo isso são as maiores preocupações, a esta altura.

RFI: O Vasco é português… Não está propriamente habituado a este tipo de situações. Como é que é, enquanto português, está a viver tudo isto num país tão longínquo? Como é que está a reagir a todos estes acontecimentos?

Vasco Leitão: É estranho, É uma sensação estranha. O Catar é um país, eu diria, ainda mais seguro que Portugal, até mesmo no dia-a-dia. Eu deixo o carro destrancado com as chaves lá dentro à porta de casa, portanto, estamos habituados a uma sensação super, super segura aqui. E é muito estranho ver isto tudo a acontecer. Portanto, claro que sendo português e especialmente estando aqui num dos países mais seguros, esta sensação de insegurança é um sentimento que não estamos habituados a sentir. Portanto, estamos a ver as notícias. Estamos a acompanhar, a olhar lá para fora. É uma sensação mais estranha do que outra coisa qualquer.

RFI: Tem receio que, no fundo, as defesas antiaéreas não funcionem de forma devida e que caia eventualmente algum míssil perto do local onde está? Há este receio vincado por estes dias?

Vasco Leitão: Eu acho que pouco porque temos todos muita confiança na preparação do governo e na organização que o país tem. E até agora temos tido provas dadas de que todas as defesas estão a funcionar e todos os mísseis têm sido interceptados. Portanto, eu acho que não. Ainda não temos essa preocupação. Talvez porque ainda não aconteceu ou porque talvez ainda nos queiramos manter optimistas. Mas não sinto isso, nem sinto que as pessoas aqui estão com essa preocupação. Lá está, as plataformas de entrega de comida em casa continuam a funcionar. Há carros na estrada. Eu acho que há alguma confiança de que a defesa funciona.

RFI: Existe, portanto, alguma normalidade também perante o caos... Eu sei, Vasco que tinha um voo para Portugal, que tem sido consecutivamente anulado. Pergunto-lhe se pensa voltar para Portugal, de forma definitiva, depois deste aumento da tensão agora nessa região do mundo?

Vasco Leitão: Para já, penso em ir ter com a minha mulher, que felizmente já está em Portugal para passar o tempo de férias que já tinha programado antes disto tudo começar. Depois, vamos ver como é que a situação evolui.

RFI: Quais são as expectativas agora para o futuro? Há alguns relatos de que esta guerra, que estes ataques possam durar alguns dias. Crê que a situação se poderá resolver em breve?

Vasco Leitão: Não sei realmente o que esperar. É tudo muito imprevisível. Os líderes de um dos lados mudaram. Portanto, tudo o que se possa prever agora são só suposições. Eu acho que só o tempo nos dirá.

A Semana com RFI

 

Colunistas

Alexandre Vieira Fontes
Alexandre Vieira Fontes
18 Sep. 2026
Filomena Silva: uma jornalista de coragem e...
  Filomena foi uma jornalista de gabarito, dotada de um...
José Rodrigues
José Rodrigues
07 Sep. 2026
Cabo Verde na Vanguarda da Nova Economia:...
A indicação do líder da operadora concessionária deve basear-se...
Léo Rosa de Andrade
Léo Rosa de Andrade
31 Aug. 2026
A ÉTICA DO DESINTERESSE, A VIDA EM...
A cultura do ódio trazida para a vida pública...
César Augusto G. Garcia
César Augusto G. Garcia
21 Aug. 2026
COISAS DO ESTADO ou ESTADO DE COISAS...
Relevar dignidade deste país é fazer com que o...
Tony Miranda
Tony Miranda
21 Aug. 2026
A Inflação do Prestígio: Como a Obsessão...
Esta inflação sistémica de títulos está longe de ser...
Péricles Tavares
Péricles Tavares
03 Aug. 2026
Editorial Analítico — A Década de Conflito...
A política cabo-verdiana viveu, nos últimos dez anos, uma...

Comentários

joão do rosário
23 dias atrás 13 horas atrás

SENHOR PRESIDENTE, DEIXE-SE DE TRETAS: NÓS SABEMOS QUEM O SENHOR É José Maria Neves vem agora dizer que é “muito melho ...

jcf
25 dias atrás 6 horas atrás

Cabo Verde tem uma facilidade extraordinária para comentar o que se passa na casa dos outros. Guiné-Bissau, Angola, Moçamb ...

joão do rosário
27 dias atrás 12 horas atrás

Isto já parece gozo. 177 casos desde o início do ano e já estão outra vez a sacudir o fantasma da pandemia. Sem números ...