quarta-feira, 30 setembro 2026

Júlio Correia lança livro “Cabo Verde: Percursos, Rupturas e Paradoxos”

O livro, diz o autor em entrevista à Inforpress, procura fazer uma leitura temporal do percurso de Cabo Verde, um percurso que naturalmente não foi, nem será doravante linear, com aqui e além algumas roturas e também os seus paradoxos.

“O livro começa num lugar simples, talvez até desconfortável, (…) eu fui ler o primeiro programa do Governo de 1975 e quis perceber, numa leitura minha que não deitasse nada abaixo, mas também que não glorificasse nada”, afirmou Júlio Correia, frisando que teve apenas a ideia de procurar e analisar, numa perspectiva ensaística e, até académica, em relação a este passado.

Da consulta feita ao executivo de então quis perceber como os chamados pilares da reconstrução nacional se comportaram, tendo ele próprio feito a si mesmo algumas perguntas.

“O que é que aconteceu a estes pilares?”, interroga Correia que começou, primeiro, por orientar a própria expressão de reconstrução nacional.

A sua ideia, acrescenta, era ver o comportamento daqueles pilares baseados nas narrativas políticas para a mobilização colectiva do país, em ordem à reconstrução nacional e o impacto real da implementação das referidas políticas.

“Estamos a falar da implementação de políticas num país que nada tinha. Estamos a falar de implementar pilares num território árido, fragmentado, sem recursos. Portanto, tinha falta de quase tudo”, indicou o autor.

Na sua perspectiva, os tais pilares não eram, essencialmente, o exercício ideológico.

“Era o exercício da sobrevivência. E aqui começa, digamos, também uma outra ideia que eu lanço, que é a narrativa política, em nome de uma realidade impactante”, vincou a fonte da Inforpress.

Com esta obra pretende pôr em crítica e não pôr em crise, pois, segundo ele, vários livros editados recentemente têm optado por pôr em crise todo o percurso de Cabo Verde.

Há quem defenda que já em 1975 Cabo Verde podia ter optado por uma democracia pluralista.

Para Júlio Correia, conceptualmente o país pode ser considerado totalitário porque tinha um partido único, além de uma economia que não era de mercado e “uma imprensa que não era absolutamente livre”.

“É o mesmo partido que não permitiu a liberdade de imprensa, mas atribuiu frequências para a Rádio Nova e consentiu a existência do jornal Terra Nova (ambos órgãos de informação ligados à Igreja Católica)”, notou ainda.

Relativamente à reconstrução nacional, para ele não significava apenas fazer estradas ou construir edifícios, mas era, sobretudo, “criar um Estado onde não havia Estado”.

“Era preciso reconstruir, significando provar que o país podia permanecer de pé e podia avançar sem tutela”, indicou, ajuntando que havia a necessidade de criar um sentimento de pertença e de identidade, pelo que o conceito de reconstrução nacional não era apenas um slogan técnico, “era uma ideia existencial”.

Diferentemente de outros autores que já escreveram sobre o período do partido único, Júlio Correia é de opinião que a democracia cabo-verdiana “não nasce contra o sistema, ela nasceu de dentro dele e das suas próprias contradições”.

“Continuo a pensar que nós mudamos de regime em 91, mas eu não penso que tenhamos mudado completamente de cultura política”, comentou o autor do “Cabo Verde: Percursos, Rupturas e Paradoxos”, para quem se criou o pluripartidarismo, mas, salientou, “parece que cada partido passou a funcionar como um pequeno partido único”.

Justifica dizendo que os partidos não se têm dialogado dentro de si e que nos debates parlamentares se assiste a uma lógica binária, em que um diz sim e o outro diz não.

“Não conseguimos eleger os cargos externos (ao parlamento) porque aqueles cargos estão capturados para a lógica interesseira dos partidos políticos”, lamentou o antigo deputado à Assembleia Nacional, ressaltando que hoje em Cabo Verde existe uma sociedade plural, com ordens profissionais, associações e movimentos cidadãos.

“Temos pensamento crítico, mas temos também partidos políticos que, no interior deles, até que parece que procuram unanimidade interna”, deplorou Júlio Correia.

Um outro aspecto abordado pelo autor é a Administração Pública que não foi desmantelada, em 1975, o que segundo ele, permitiu conservar a memória administrativa e continuar o percurso.

A apresentação da obra vai estar a cargo de Arnaldo Andrade e Felisberto Vieira, ambos antigos governantes e deputados.

 

A Semana com Inforpress

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Comentários

joão do rosário
23 dias atrás 15 horas atrás

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jcf
25 dias atrás 8 horas atrás

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joão do rosário
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