quarta-feira, 30 setembro 2026

Dia Nacional dos Pescadores: Pescadores da Gamboa denunciam precariedade, instabilidade e falta de apoio

A Inforpress deslocou-se à Praia da Gamboa, na capital, onde, ainda pela manhã, os pescadores iniciavam os preparativos para mais uma jornada no mar em busca do sustento diário, ao mesmo tempo que relataram a situação de precariedade e dificuldades estruturais que enfrentam há vários anos.

José Monteiro, pescador há 15 anos, descreveu a actividade como “uma vida triste”, sublinhando que a incerteza é a única constante.

“Às vezes a gente está bem, outras vezes não. Não está bem com os documentos, não está bem com contratos, não está bem com nada. A vida do pescador é sempre instável”, lamentou.

Natural da cidade da Praia, José Monteiro contou que iniciou a sua trajectória profissional ainda criança, primeiro na construção civil, acompanhando o pai, antes de se ligar definitivamente à pesca artesanal.

“Quando eu era pequeno, trabalhava na obra com o meu pai. Depois pedi a um senhor chamado Torresma para ficar com ele no mar. Foi assim que comecei”, relatou.

Ao longo dos 15 anos de actividade, diz ter enfrentado dificuldades constantes, desde problemas com documentação das embarcações, custos elevados, ausência de contratos formais, até situações de insegurança no exercício da profissão.

“Há problemas com documentos de bote, com condições no alto mar, com promessas que não se cumprem. Muitas vezes a gente fica à espera, sem resposta”, explicou.

Apesar das dificuldades, José Monteiro afirmou que nunca abandonou a actividade.

“Nunca deixei. Sempre estive no sustento. Mesmo quando ficava uma semana sem pegar nada, continuava. É isso que sei fazer”, sublinhou.

No mesmo tom, o pescador "Torresma", com três décadas de experiência, reforçou que a profissão perdeu o fulgor de outrora.

“Antigamente era difícil, mas hoje é mais incerto. O peixe já não aparece como antes, os custos aumentaram, o combustível e os materiais estão caros, e o apoio é pouco”, afirmou à Inforpress.

Torresma evidenciou ainda a ausência de políticas públicas eficazes para o sector.

“O pescador trabalha, arrisca a vida no mar, mas não tem segurança social, não tem protecção, não tem garantias. Quando adoece, quando o barco está avariado, fica por conta própria”, disse.

Os pescadores relataram que já tentaram, por diversas vezes, submeter documentos e pedidos de apoio ao Governo, mas não obtiveram qualquer resposta.

Para além das questões económicas, os pescadores denunciaram o estado de insalubridade da Praia da Gamboa. Segundo relataram, o espaço actual é impróprio para a actividade, sendo frequentemente utilizado para necessidades fisiológicas por terceiros, o que compromete a higiene necessária para o manuseio do pescado.

Neste Dia Nacional dos Pescadores, a classe apela a que a data deixe de ser apenas um momento de “homenagens simbólicas” e se transforme num compromisso real do Governo para com a valorização da profissão, através de políticas públicas eficazes e condições de trabalho dignas.

Na Praia da Gamboa, a pesca permanece como um acto diário de sobrevivência, resistência e identidade.

Entre o sal, o sol e o risco constante, homens transformam o mar em casa, sustento e destino, lançando redes não apenas para garantir alimento às suas famílias, mas para manter viva uma herança que atravessa gerações, mesmo num cenário de abandono, incerteza e invisibilidade social.

 

A Semana com Inforpress

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Comentários

joão do rosário
23 dias atrás 18 horas atrás

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jcf
25 dias atrás 10 horas atrás

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joão do rosário
27 dias atrás 16 horas atrás

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