quarta-feira, 30 setembro 2026

José Maria Almeida considera distinção um estímulo à preservação do património documental cabo-verdiano

Com a sua obra sobre a Revolta de Novembro, um livro de 223 páginas, lançado em 2015, uma investigação de décadas, que revela a trajetória inédita de um militar polaco que serviu como governador interino na Guiné e em Cabo Verde entre 1830 e 1850, José Maria Almeida vê seu mérito selado por uma das mais resilientes culturas da Europa.

Em conversa com a Inforpress para esmiuçar sobre o prémio conquistado pela primeira vez por um cabo-verdiano, o arquivista José Maria Almeida, o “Guardião da Memória” confessou a sua surpresa e honra pela distinção estrangeira, sublinhando que esta medalha serve de estímulo para a classe.

“É um reconhecimento pelo trabalho que fiz e uma forma de contribuir para os laços entre a Polónia e Cabo Verde”, afirmou, lembrando que a ligação histórica entre os dois países é pouco conhecida, sendo a Mazurka um dos raros elos culturais sobreviventes na memória colectiva.

O investigador cabo-verdiano, para quem o Arquivo Histórico Nacional é uma “mina de ouro” explicou que a investigação que levou à condecoração começou por “mero acaso” em 1985, durante um processo de descarte de documentos da antiga Biblioteca Pública da Praia, onde recuperou uma pasta que continha manuscritos inéditos, as “Memórias de Bissau e suas dependências”, escritas pelo Major Dziezaski.

Lembrando que o processo de investigação foi longo e intermitente, atravessando décadas, a mesma fonte sublinhou que o Arquivo Histórico Nacional é uma estrutura vital para a identidade do país, embora o trabalho de bastidores, que compara ao de "um mineiro ou de uma formiga", seja invisível para 80% do público.

“O Arquivo é uma mina de ouro. Temos fundos documentais importantíssimos. É uma questão de as pessoas entrarem lá dentro. Sei que é um trabalho árduo de pesquisa, mas é gratificante”, comentou.

Nesse percurso, conta que em 1985/86 fez a recuperação dos documentos e primeiras pesquisas em França e Lisboa, em 1988 com a criação do Arquivo Histórico Nacional, assume funções directivas, limitando, entretanto, o tempo para a escrita, mas em 2006 após cessar funções de direcção, retoma a pesquisa como técnico superior e, finalmente, 2015 foi o ano em que se fez a publicação do livro, com o apoio decisivo do Dr. David Hopffer Almada e prefácio de Osvaldo Lopes da Silva.

Sobre os desafios da era digital, José Maria Almeida defende que a digitalização é o caminho necessário, mas adverte que para isso, o Estado deverá dotar a instituição de meios.

Apesar de reformado desde 2021, o investigador não tenciona parar.

Com dois livros já publicados, o segundo sobre o médico italiano Luigi Filiberti, Almeida revelou ter novas obras “na calha”, incluindo uma biografia sobre o escritor José Evaristo Almeida.

O agora medalhado deixou ainda uma nota de admiração pela resiliência do Major polaco que estudou, realçando a coragem de um homem habituado ao frio da Polónia que se adaptou aos trópicos e às epidemias da época para servir em Cabo Verde e na Guiné, deixando o seu nome em ruas da capital cabo-verdiana que muitos ainda não sabiam identificar.

Ao ser condecorado com a Medalha de Mérito Cultural, José Maria Almeida entra num restrito grupo de intelectuais africanos reconhecidos pelo estado polaco, simbolizando a excelência da classe técnica cabo-verdiana.

Assim, mais do que um guardião de documentos, José Maria Almeida é hoje um mediador cultural cujo trabalho permitiu que capítulos partilhados da história luso-polaca e cabo-verdiana fossem preservados para o futuro.

A Semana com Inforpress

 

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Comentários

joão do rosário
24 dias atrás 3 horas atrás

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jcf
25 dias atrás 19 horas atrás

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joão do rosário
28 dias atrás 1 horas atrás

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