sexta-feira, 02 outubro 2026

Independência/50 Anos: A tarefeira que cresceu com a Empa e que diz sentir na pele a injustiça de 40 anos de dedicação

A Empa, empresa pública, foi criada pelo decreto-lei 07/75, de 10 de Setembro, e iniciou suas actividades em Outubro do mesmo ano.

Foi extinta nos anos 90 pelo Governo devido à gestão deficitária.

As suas actividades consistiam fundamentalmente na importação e comercialização de bens alimentares essenciais e materiais de construção, comercialização de donativos, exportação de produtos nacionais, dinamização e compra de produtos nacionais para garantir a segurança do abastecimento, regularização do mercado e estabilização dos preços.

Teresa Benvinda Medina, também conhecida como Teresinha, é uma dessas mulheres que, com força e coragem, carregavam sacos de milho, feijão, óleo, açúcar, arroz e materiais de construção nos armazéns da Empa.

Como disse em entrevista à Inforpress, iniciou sua jornada na empresa com 23 anos e cinco filhos, enfrentando jornadas extenuantes que, muitas vezes, se estendiam por 24 horas, quando as tarefeiras eram em número reduzido.

"Os carros traziam as mercadorias do cais e nós fazíamos as descargas nos armazéns, mas também fazíamos o contrário, enchíamos as viaturas de mantimentos que eram enviados de São Vicente para outras ilhas", relatou, nostálgica, com lembrança do esquema utilizado para abastecer as outras ilhas.

Um trabalho pesado, lembrou, cuja dica aprendeu com a amiga Rosa e com quem normalmente partilhava os sacos de 110 quilogramas, com o peso dividido por duas mulheres, e que na maioria das vezes passavam a madrugada a trabalhar.

“Os homens do grupo nos ajudavam a colocar os sacos na cabeça e fazíamos as descargas sem parar”, sublinhou.

Apesar da dedicação e do esforço incansável, Teresinha e suas colegas não receberam qualquer compensação quando o Estado decretou a falência da Empa nos anos 90.

"Fizemos descontos para as Finanças e até para o sindicato, mas no final ninguém conseguiu resguardar os nossos direitos", lamentou.

A revolta é ainda mais profunda, pois, enquanto novos funcionários foram contratados e indemnizados, as tarefeiras que já se encontravam há décadas na empresa ficaram desamparadas.

“Lembro que alguns colegas foram para uma reunião, na cidade da Praia, mas no final disseram-nos que não tínhamos quaisquer direitos, até um dos responsáveis do Governo chegou a dizer que éramos apenas táxis”, contou, com mágoa, de se ter sacrificado tanto pelo Estado, que “nunca reconheceu”.

Mas a “injustiça e ingratidão” não fizeram vergar essa mulher de fibra, que além dos desafios profissionais, enfrentou adversidades pessoais, incluindo a perda de um dos nove filhos.

Sinais da coragem de uma mulher que na juventude até se formou como milícia do partido único e nunca levou abuso de homem nenhum, como narrou.

No entanto, ela se orgulha de ter contribuído para a emancipação e o desenvolvimento de Cabo Verde, através do seu trabalho na Empa.

Uma empresa cuja história se confunde com a de Teresinha, que diz ser o reflexo das lutas e sacrifícios de muitas mulheres cabo-verdianas que, com coragem e determinação, contribuíram para a construção do país, muitas vezes sem o devido reconhecimento.

 

A Semana com Inforpress

Colunistas

Alexandre Vieira Fontes
Alexandre Vieira Fontes
18 Sep. 2026
Filomena Silva: uma jornalista de coragem e...
Léo Rosa de Andrade
Léo Rosa de Andrade
31 Aug. 2026
A ÉTICA DO DESINTERESSE, A VIDA EM...
César Augusto G. Garcia
César Augusto G. Garcia
21 Aug. 2026
COISAS DO ESTADO ou ESTADO DE COISAS...

Comentários

joão do rosário
26 dias atrás

SENHOR PRESIDENTE, DEIXE-SE DE TRETAS: NÓS SABEMOS QUEM O SENHOR É José Maria Neves vem agora dizer que é “muito melho ...

jcf
27 dias atrás 16 horas atrás

Cabo Verde tem uma facilidade extraordinária para comentar o que se passa na casa dos outros. Guiné-Bissau, Angola, Moçamb ...

joão do rosário
29 dias atrás 23 horas atrás

Isto já parece gozo. 177 casos desde o início do ano e já estão outra vez a sacudir o fantasma da pandemia. Sem números ...

Pub-Reportagem

publireport