sexta-feira, 02 outubro 2026

EUA: Encerramento da Voz da América reforça influência da China em África – analista  

“O encerramento da Voz da América (VOA na sigla em Inglês) é uma ótima notícia para a China”, apontou Dani Madrid-Morales, especialista em comunicação política global da Universidade de Sheffield que há muitos anos acompanha os esforços de Pequim, em particular no continente africano.

“Em África, a VOA era mais popular do que a [televisão estatal chinesa] CGTN ou outros órgãos chineses”, disse o investigador, destacando os “diferentes valores jornalísticos” do veículo até agora suportado pelo Governo federal norte-americano: “A VOA era conhecida por dar voz aos partidos da oposição, enquanto a CGTN dá, sobretudo, voz aos que estão no governo”, descreveu.

A VOA mantinha também um portal em língua chinesa que publicava histórias omitidas pela imprensa do país asiático. A China ocupa o 172º lugar entre 180 países no índice de liberdade de imprensa dos Repórteres Sem Fronteiras.

Em editorial, o Global Times, jornal oficial do Partido Comunista Chinês, saudou a decisão da administração de Donald Trump. “O chamado farol da liberdade, a VOA, foi agora descartado pelo seu próprio governo como um trapo sujo”, afirmou.

A VOA era uma das mais antigas rádios internacionais e emitia em 48 línguas, incluindo o português, pelo que ocupava um papel relevante na África lusófona.

A decisão de Trump surge num período em que a China está “mais ativa” nos esforços para influenciar a opinião pública em África, visando abalar a influência das potências ocidentais no continente e assumir protagonismo nos assuntos internacionais, notou Madrid-Morales.

A CGTN possui um centro de produção em Nairobi e a agência noticiosa oficial chinesa Xinhua abriu já cerca de 30 delegações no continente. Todos os anos, dezenas de jornalistas africanos participam num intercâmbio de seis meses na China organizado pelas autoridades do país, que inclui viagens, alojamento e despesas pagas.

Acordos de partilha ou de publicação de conteúdo patrocinado permitem também aos órgãos de Pequim difundir nos países africanos informação aprovada pela propaganda do Partido Comunista com o selo de órgãos de comunicação independentes locais.

Outros esforços incluem o fornecimento de equipamento para órgãos de comunicação africanos, a assinatura de contratos de longo prazo com jornais para publicar artigos de embaixadores e outros funcionários chineses ou a utilização de influenciadores nas redes sociais.

Madrid-Morales observou que a China mudou a sua abordagem de uma posição "reativa", em que se defendia de críticas sobre violações dos Direitos Humanos, por exemplo, para uma postura "proativa".

“Agora, vemos a China a assumir a liderança em determinados temas e a atacar mais ativamente os Estados Unidos, a ‘hipocrisia de Washington’, França ou os ‘padrões duplos’ do Ocidente na África Ocidental e na África francófona”, descreveu.

A transformação começou com os protestos pró-democracia em Hong Kong e intensificou-se durante a pandemia da covid-19 e a guerra na Ucrânia.

A maior proatividade dos órgãos de Pequim está em sintonia com uma transformação na política externa chinesa, de um “perfil discreto” para uma postura mais assertiva.

“É o reflexo de uma mudança na China”, apontou o investigador: “Com [o Presidente] Xi Jinping, a China passou a reivindicar mais poder discursivo e a utilizar esse poder de forma mais agressiva”.

Nos países africanos de língua portuguesa, os órgãos de Pequim continuam a ter audiência reduzida, em parte porque apenas a Rádio Internacional da China e a Xinhua mantêm um serviço em português.

O inquérito realizado por Madrid-Morales revelou que em Angola, por exemplo, apenas 3% dos inquiridos tinham assistido a conteúdo da CGTN nos últimos sete dias.

A Semana com Lusa

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Comentários

joão do rosário
26 dias atrás 7 horas atrás

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joão do rosário
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