Celestino Barros entrou numa sala de aula em 2004 apenas para cumprir uma etapa do estágio e sem intenção de seguir a docência, mas foi ali que descobriu uma vocação que acabaria por marcar mais de duas décadas.
A sua visão da docência, contudo, ultrapassa a transmissão de conteúdos. No ensino superior, considera que o professor trabalha com jovens que, poucos anos depois, estarão a tomar decisões, liderar equipas, criar empresas, investigar, gerir instituições ou procurar respostas para problemas que ainda não existem.
Durante praticamente todo o percurso universitário, o informático tinha uma certeza: não queria ser professor, a entrada na docência aconteceu quando frequentava o quinto ano da Licenciatura em Informática, no então Instituto Superior de Educação (ISE), durante uma das experiências do estágio no curso de Licenciatura em Estudos Cabo-verdianos e Portugueses.
O que deveria ser apenas mais uma etapa académica acabou por despertar um interesse que até então desconhecia. Ao explicar conteúdos, acompanhar as dificuldades dos estudantes e perceber o momento em que alguém finalmente compreendia aquilo que antes parecia difícil, começou a descobrir uma outra dimensão do conhecimento.
“Costumo dizer que a docência entrou na minha vida antes de eu decidir entrar na docência”, contou à Inforpress, ao recordar o período em que percebeu que ensinar poderia ser mais do que uma obrigação curricular.
Terminada a formação, aceitou o convite para continuar a leccionar no ISE. Pouco depois, a instituição integrou o processo de criação da Universidade de Cabo Verde (Uni-CV), e Celestino Barros manteve-se ligado ao ensino superior, numa trajectória que começou quase por acaso e já ultrapassa duas décadas.
A permanência na docência trouxe também a necessidade de continuar a estudar. Depois da licenciatura, fez o mestrado em Engenharia Electrónica e Telecomunicações, na Universidade de Aveiro, e, mais tarde, o doutoramento em Ciência e Tecnologia Web.
A formação acompanhou a evolução tecnológica e as transformações que marcaram o ensino superior.
As ferramentas mudam, as profissões transformam-se e os estudantes chegam às universidades com novas referências, expectativas e formas de aprender, o que exige do professor novos conhecimentos e métodos.
“Os estudantes mudam, a tecnologia muda, as profissões mudam e o próprio professor tem de mudar”, observa.
A sua visão da docência, contudo, ultrapassa a transmissão de conteúdos. No ensino superior, considera que o professor trabalha com jovens que, poucos anos depois, estarão a tomar decisões, liderar equipas, criar empresas, investigar, gerir instituições ou procurar respostas para problemas que ainda não existem.
Por isso, entende que a formação não pode limitar-se à reprodução dos conteúdos de uma disciplina. Deve preparar os estudantes para pensar, questionar, propor soluções, reconhecer erros e continuar a aprender mesmo quando já não tiverem um professor por perto.
É também por essa razão que atribui à universidade a responsabilidade de formar profissionais capazes não apenas de ocupar os lugares que já existem, mas também de criar novas oportunidades e responder aos desafios do país com conhecimento, criatividade e capacidade de intervenção.
“Não podemos formar jovens apenas para ocupar lugares que já existem”, defende.
Depois de mais de duas décadas no ensino, algumas das maiores recompensas da profissão, diz, surgem quando reencontra antigos estudantes já transformados em engenheiros, professores, investigadores, gestores ou profissionais de outras áreas.
Esses encontros permitem-lhe perceber que o trabalho desenvolvido numa sala de aula pode ultrapassar o tempo de uma disciplina ou de um semestre académico.
Uma explicação ou uma orientação pode permanecer na memória de um estudante durante anos e influenciar escolhas profissionais ou a forma como irá enfrentar novos desafios.
“A aula não termina quando saímos da sala”, resume.
A docência também traz exigências, responsabilidades e resultados que nem sempre aparecem de imediato. Muitas vezes, o verdadeiro alcance do trabalho de um professor só se revela anos depois, quando os antigos alunos seguem os seus próprios caminhos.
Por isso, Celestino Barros entende que o sucesso de um docente não deve ser medido apenas pelo que conseguiu ensinar durante um semestre, mas também pela capacidade que o estudante desenvolveu para utilizar esse conhecimento ao longo da vida.
Hoje, quando recorda aquele estágio de 2004, não vê apenas o início de uma actividade profissional, mas o momento em que descobriu uma vocação que até então desconhecia.
A ironia seria sentida mais tarde, a profissão que durante anos afirmou não querer seguir tornou-se uma das linhas mais constantes da sua vida.
Mais de duas décadas depois de entrar naquela sala de aula pela primeira vez, Celestino Barros continua a acreditar que ensinar é uma forma concreta de participar na construção do futuro de outras pessoas e, através delas, do próprio país.
O Dia Mundial dos Professores é celebrado anualmente desde 1994, ano em que foi proclamado pela UNESCO em homenagem à aprovação da Recomendação da OIT/UNESCO sobre o Estatuto dos Professores, ocorrida em 1966.
A Semana com Inforpress

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