terça-feira, 29 setembro 2026

REPORTAGEM: Maternidade desejada e maternidade recusada nas vozes íntimas da infertilidade feminina

Para muitas mulheres, o desejo de ser mãe é uma constante que atravessa gerações, para outras, o tempo e as circunstâncias da vida encarregaram-se de transformar a ausência de filhos numa aceitação pacífica ou até num alívio.

 

Com idades compreendidas entre os 40 e os 60 anos, várias mulheres - umas sob a condição de anonimato, outras assumindo publicamente os seus testemunhos descomplexadamente -, quebraram o silêncio para partilhar o peso de não terem parido, revelando um espectro de emoções que vai do desejo não concretizado à tranquilidade perante o rumo da vida.

Aos 42 anos, a pressão social e o “relógio biológico” continuam a fazer-se sentir com intensidade e, para quem sempre sonhou com a maternidade, o diagnóstico de infertilidade chega, de facto, como uma realidade difícil de assimilar.

“Ver o teste negativo mês após mês é um processo contínuo de adaptação e dor. É um assunto que raramente se debate em aberto, talvez por trazer consigo uma certa sensação de fragilidade em relação ao que a sociedade espera de nós enquanto mulheres. Hoje em dia, a ciência dá-nos esperança e estou a guardar os meus recursos para tentar a fertilização ‘in vitro’. Enquanto houver uma réstia de possibilidade, não vou desistir...”, confessa Cristina, uma das entrevistadas, de 41 anos.

À medida que os anos avançam, a dor original tende a mudar de forma, pelo que, entre as mulheres na casa dos 60 anos que nunca tiveram filhos, o discurso divide-se entre a saudade do que não foi e a serenidade da adaptação.

“Quando tinha 30 ou 40 anos, doía-me profundamente ver as minhas amigas a baptizar os filhos, a levá-los para o jardim infantil, ou a irem às reuniões de escola. Sentia-me de fora. Mas o tempo passa, a vida ganha outros rumos e a gente habitua-se a viver sem essa figura. Hoje, aos 62 anos, aprendi a cuidar de mim e a ser 'mãe' de outros afectos, como sobrinhos e a comunidade”, relata outra mulher.

Também com uma trajectória marcada pela redescoberta de novos propósitos, a jornalista Paula Cavaco partilha a forma como ressignificou o conceito de ser mulher perante a perda e a ausência de filhos biológicos.

“Para mim, enquanto mulher, a realização feminina não está vinculada à obrigatoriedade de gerar filhos. Escolher não ser mãe é uma decisão cada vez mais legitimada nos tempos actuais, onde ser mulher passou a ser uma construção individual, baseada na carreira, na independência, na criatividade ou na maternidade, dependendo apenas do desejo de cada uma”, manifestou Paula Cavaco.

“Estive grávida aos 42 anos e, três meses depois, perdi o bebé. Talvez não estivesse escrito na minha missão neste planeta ser mãe biológica. Porém, sinto-me profundamente grata por ter criado sobrinhas e por ter adoptado uma menina linda de coração e alma”, completou, com ar de satisfação.

Sobre o caminho percorrido entre a dor e a tranquilidade, Paula reflecte sobre a forma como o tempo transforma a ausência em aceitação e paz interior.

“A ausência de filhos é uma jornada profundamente individual, que se divide entre a paz e a aceitação. A paz vem da liberdade de tempo, do foco na carreira, nas viagens, nos projectos pessoais e no fortalecimento de laços afectivos com familiares e amigos. Já a aceitação não se constrói em meses ou anos, mas sim em ciclos, onde a dor gradualmente dá lugar a novas formas de propósito de vida”, enfatizou a jornalista.

Se para umas a ausência de descendência é uma ferida ou uma aceitação, para outras transforma-se num alívio quando observam as dinâmicas familiares actuais.

É que, as transformações sociais e comportamentais dos mais jovens levam algumas mulheres a reavaliar a dor da infertilidade.

“Antigamente achava que me faltava algo por não ter filhos. Hoje, olhando à minha volta, vejo muitos pais desgastados, com filhos ingratos, desobedientes, que só dão preocupações e no fim nem querem saber de quem os criou”, confessa Teresa Medina.

“Quando vejo essa realidade, penso que Deus sabe o que faz. Não lamento de todo não ter passado por isso, ganhei paz de espírito”, desabafa uma entrevistada de 58 anos.

Seja pelo recurso à medicina reprodutiva, pela resignação ao longo do tempo ou pela constatação de que a maternidade não garante a felicidade, estas vozes mostram que não existe um sentimento único perante a infertilidade.

O tema, muitas vezes remetido para o foro íntimo devido ao estigma social, revela que a identidade e a realização feminina extrapolam a capacidade biológica de gerar vida, permitindo que cada mulher encontre, à sua maneira, o seu próprio equilíbrio.

Apesar das perspectivas distintas sobre a maternidade, há um ponto de convergência entre todas as entrevistadas: o desejo de que a sociedade pare de julgar a mulher pela presença ou ausência de filhos.

No final destes relatos, fica um apelo simples e unânime deixado por quem viveu e vive o peso do silêncio.

“Parem de nos perguntar ‘e os filhos, para quando?’. Às famílias, pedimos mais sensibilidade para não transformarem as festas ou conversas num interrogatório doloroso”, rogam.

Ao Estado e ao sistema de saúde, outras pedem que o acesso aos tratamentos de fertilidade não seja um luxo para poucas, mas sim uma opção real e humanizada.

“Mas, acima de tudo, pedimos respeito pelo nosso percurso, quer tenhamos lutado por ter um filho, quer tenhamos aprendido a ser felizes sem ele”, concretizam outras senhoras que deram os seus depoimentos à Inforpress sob compromisso de confidencialidade, garantindo o anonimato.

A Semana com Inforpress

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Comentários

joão do rosário
22 dias atrás 19 horas atrás

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jcf
24 dias atrás 12 horas atrás

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joão do rosário
26 dias atrás 18 horas atrás

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