segunda-feira, 28 setembro 2026

SEXO:REGRAS & NEUROSES

Vontade de sexo, tal como o é a fome, é coisa primitiva. Fazer sexo, do mesmo modo que o comer, é ato a que se acrescentou complexidade. Há intermediação de cultura subjetivada. “A ordem do sentido, evocada por Jacques-Alain Miller, não é a ordem primitiva dos sentidos fisiológicos. Nesse contexto lacaniano, o termo ‘sentido’ equivale ao conceito de ‘significado’.

Léo Rosa de Andrade*

A compreensão que temos de nós mesmos não nos permite levar em conta o que temos de primitivo. Falo de primitivo no sentido do que, em nosso organismo, funciona pouco diferenciadamente de como funcionou em nossos ancestrais. A sensação de fome, por exemplo, decorre de comandos de instâncias primevas de nosso cérebro.

A diferença está em que um primata antropoide tinha fome e se atracava com o que pudesse submeter à condição de comida. Um humano urbano tem a mesma fome, não obstante, não caça nem tem relação direta com a produção de alimentos. O comer agregou valores ao devorar: as etiquetas à mesa e a sofisticação dos sabores.

As regras de conduta para o comer adquiriram tal importância que acabaram como intermediação significativa entre o instinto e a refeição. As especificidades das relações com a comida destacam não só a ocasião, mas a postura de quem come (etiqueta), identificando a formação pessoal e os lugares sociais de origem dos comensais.

Vontade de sexo, tal como o é a fome, é coisa primitiva. Fazer sexo, do mesmo modo que o comer, é ato a que se acrescentou complexidade. Há intermediação de cultura subjetivada. “A ordem do sentido, evocada por Jacques-Alain Miller, não é a ordem primitiva dos sentidos fisiológicos. Nesse contexto lacaniano, o termo ‘sentido’ equivale ao conceito de ‘significado’.

Lacan inspirou-se no filósofo Frege ao diferenciar o sentido (Sinn) do significado (Bedeutung). Tal diferenciação entre o sentido e o significado é, no âmbito da teoria de Lacan, o trajeto feito pelo sentido bruto da sensibilidade até o além do sentido inaugurado pela subjetividade.

A ordem subjetiva do significado, como se constitui sob os efeitos do simbólico, reorganiza a própria sexualidade humana como um ‘valor’, não como uma vivência pura. A mera descarga reflexa do instinto é redimensionada na subjetividade, ganhando assim um papel simbólico distinto de sua origem.

Quando Jacques-Alain Miller, tentando resgatar a contribuição mais original de Lacan, diz que o sujeito está perenemente enredado pela ordem discursiva, está nas entrelinhas afirmando que todo ente humano só pode desejar um objeto com a condição de o mesmo estar mediatizado pelo desejo do outro.

Através da socialização do corpo o sujeito é convertido em um animal ‘desnaturalizado’ e, a partir daí, os diversos discursos culturais passam a condicionar a nossa nova e alienada maneira de ser” (Marcos de Oliveira, Lacan e a sua antropogenia do sentido, Facebook).

Há milênios deixamos de ser apenas natureza. O cérebro do humano atual nem estava pronto quando a cultura já incidia sobre ele. Seja: não há como escapar dos discursos culturais que nos são “falados”. Somos como que buscados e constituídos em nossa subjetividade por modos de pensar circulantes que nos alcançam e nos formatam.

O sexo restou o sexo mais os valores que lhe foram agregados: uma coleção de códigos permissivos – com poucas, ainda que inalienáveis obrigações – aos homens; para as mulheres – às vezes laborando contra si mesmas –, uma enormidade de impedimentos e conformações. Homens e mulheres reproduzem esses valores.

A sexualidade humana acrescida de valores foi parar nos códigos religiosos e jurídicos. Ao prazer do sexo adicionaram-se normas contratuais, ritos sociais, controles físicos, interdições de práticas, locais específicos, idade para fazê-lo, cláusulas negociais; também incentivos. Circundamos o instinto (ou a pulsão) com regulamentos.

Disciplina sexual com função repressora adoece as pessoas: neurotiza-as. Freud tem uma obra inteira mostrando isso. Os desdobramentos sociais dos valores disciplinadores adicionados ao sexo não foram o suficiente pensados. Foucault, entretanto, já adiantou: as relações entre sexualidade reprimida e poder são muito ruins.

Há uma impressão de libertinagem geral e de exploração sexual desbragada. Este me parece um sentimento social compartilhado por esquerda e direita. Não vejo assim. A meu entender há repressão, sofisticada repressão, discursada como cuidado, materializada por excessos de regramentos e investimento vigilante.

Não se confunda o dito com o descuidar-se de ataques à segurança pessoal, a crianças sobretudo, impetrado principalmente por internet. Proteger-se e proteger de assaltos à confiança e enredamentos invasivos é necessário. Proteção por orientação, admoestações e até por controle. Preocupa-me a obstaculização generalizada e metódica ao sexo, mesmo o seguro.

Obstáculo moralista, é do que trato; obstinação; obstáculo neurotizante: o objeto do zelo, mais que a segurança, é circunscrito à prática mesma de sexo. Vigilância desmedida disturba a vida. Talvez boa parte das lamentadas perturbações da sociedade contemporânea advenham do sexo metodizado substituindo o sexo como expressão espontânea do viver.

-------  

*Doutor em Direito pela UFSC.Psicanalista e Jornalista.

Colunistas

Alexandre Vieira Fontes
Alexandre Vieira Fontes
18 Sep. 2026
Filomena Silva: uma jornalista de coragem e...
  Filomena foi uma jornalista de gabarito, dotada de um...
José Rodrigues
José Rodrigues
07 Sep. 2026
Cabo Verde na Vanguarda da Nova Economia:...
A indicação do líder da operadora concessionária deve basear-se...
Léo Rosa de Andrade
Léo Rosa de Andrade
31 Aug. 2026
A ÉTICA DO DESINTERESSE, A VIDA EM...
A cultura do ódio trazida para a vida pública...
César Augusto G. Garcia
César Augusto G. Garcia
21 Aug. 2026
COISAS DO ESTADO ou ESTADO DE COISAS...
Relevar dignidade deste país é fazer com que o...
Tony Miranda
Tony Miranda
21 Aug. 2026
A Inflação do Prestígio: Como a Obsessão...
Esta inflação sistémica de títulos está longe de ser...
Péricles Tavares
Péricles Tavares
03 Aug. 2026
Editorial Analítico — A Década de Conflito...
A política cabo-verdiana viveu, nos últimos dez anos, uma...

Comentários

joão do rosário
22 dias atrás

SENHOR PRESIDENTE, DEIXE-SE DE TRETAS: NÓS SABEMOS QUEM O SENHOR É José Maria Neves vem agora dizer que é “muito melho ...

jcf
23 dias atrás 17 horas atrás

Cabo Verde tem uma facilidade extraordinária para comentar o que se passa na casa dos outros. Guiné-Bissau, Angola, Moçamb ...

joão do rosário
25 dias atrás 23 horas atrás

Isto já parece gozo. 177 casos desde o início do ano e já estão outra vez a sacudir o fantasma da pandemia. Sem números ...