segunda-feira, 03 agosto 2026

5 de julho: uma Nação que já se esqueceu de celebrar o seu nascimento?

 

O dia 5 de julho deveria tornar-se a Grande Festa de todos os cabo-verdianos. Um dia em que cada município organizaria atividades culturais, concertos, exposições históricas, competições desportivas, festival de gastronomia, cerimónias de cidadania para os jovens, encontros entre gerações, espetáculos, fogos de artifício e iniciativas envolvendo a diáspora. O Governo inauguraria grandes obras e anunciaria importantes medidas e políticas publicas. Um dia em que as crianças perceberiam porque é que a sua bandeira existe, essa bandeira que os Tubarões azuis devolveram a populações e as diásporas. Um dia em que os mais velhos transmitiriam as suas memórias. Um dia, somente 24 horas, em que as divisões políticas se apagariam perante aquilo que nos une. 24 horas a sonhar como John Lennon, no seu eterno IMAGINE

Por Alexandre Fontes

Existem datas que definem uma nação. Elas vão além dos governos, dos partidos políticos, das gerações e das circunstâncias. Pertencem a todos. A festa da independência é uma dessas.

O dia 5 de julho nunca deveria ser um dia comum.  

Em quase todos os países do mundo, o dia da independência é o momento mais importante do calendário nacional. Não é apenas um feriado. É um encontro coletivo com a História, um instante em que uma nação se olha no espelho, avalia o caminho percorrido e renova o seu compromisso com o futuro.

Em Cabo Verde, contudo, uma questão merece ser colocada: ainda somos capazes de celebrar o nosso próprio nascimento como nação?  

Pior ainda quando o dia 5 de julho calha num domingo e, portanto, não há feriado, a data passa quase despercebida e sem compensação (feriado na segunda-feira). A observação é perturbadora, como se o evento fundador da nossa Nação pudesse ser absorvido pelas rotinas ordinárias do calendário. Um país com apenas meio século de Independência.

Podemos imaginar uma situação semelhante noutro lugar?

Nos Estados Unidos, o 4 de julho transforma o país numa enorme festa popular. As cidades organizam desfiles, as famílias reúnem-se e organizam os famosos Cook-out, e os fogos de artifício iluminam o céu mesmo nas localidades mais pequenas e remotas em comemoração a Independência day (1776).

Em França, o 14 de julho é marcado pelo desfile militar nos Champs-Élysées, bailes populares, concertos e fogos de artifício por todo o território, celebrando a queda da Bastilha no dia 14 de julho de 1789.

Nos países africanos, maioritariamente independente nos anos 60, na Côte d’Ivoire, no Senegal ou no Gana, os dias nacionais dão lugar a cerimónias públicas, desfilos, atividades culturais, desportivas e educativas que mobilizam toda a população.

Mesmo os países que obtiveram a independência sem luta armada celebram este momento com uma profunda intensidade simbólica. Porque a independência não celebra apenas uma vitória militar. Celebra o nascimento de uma vontade coletiva.

Cabo Verde tem, no entanto, uma história excecional.  

A nossa independência é o resultado de uma longa luta armada e diplomática, alimentada pelo sacrifício de muitos cabo-verdianos que participaram na luta de libertação em outras terras africanas. A sua contribuição pertence plenamente ao nosso património nacional.  

Esta memória merece mais do que uma simples cerimónia protocolar.  

Hoje, o que resta realmente das celebrações: Uma sessão solene na Assembleia Nacional, onde, trajada de fatos e gravatas e vestidos a rigor, a maioria e a oposição, rodeados do corpo diplomático, repetem, cada uma, a sua leitura da situação do país. Os discursos sucedem-se, muitas vezes previsíveis: uns fazem o balanço dos sucessos do governo; outros denunciam as suas insuficiências e afirmam que teriam feito melhor.  

Estes debates são legítimos numa democracia. Mas não constituem uma festa nacional. Uma festa nacional pertence aos cidadãos, não aos responsáveis políticos.

Ela deve sair dos edifícios oficiais para investir as praças públicas, as escolas, os bairros, as aldeias, as ilhas, as associações, as famílias e a diáspora. Pelo menos a diáspora instalada nos EUA, principalmente aquela de Rhodes Island, continua a celebrar, festejando o dia 5 de julho.

Como explicar que sejamos capazes de organizar magníficos fogos de artifício para o Ano Novo, mas praticamente nenhum para celebrar o nascimento da nossa República?

Como explicar que as festividades populares sejam por vezes mais importantes para outros eventos do que para aquele que tornou possíveis todas as instituições que conhecemos hoje?

Não é a nossa intenção questionar as causas dessa situação. Mas questionar a nossa relação com a nossa própria história.

Alertamos simplesmente sobre o fato de uma nação que deixa de celebrar a sua origem acaba por banalizar gradualmente a sua memória. E quando uma memória coletiva se apaga, cadê das novas gerações. São elas que pagam o preço.

As nações fortes não são apenas aquelas que conhecem a sua história. São aquelas que dedicam tempo a celebrá-la.  Porque uma nação que deixa de celebrar o seu nascimento corre sempre o risco, um dia, de esquecer o que a une.

A história não se transmite apenas nos manuais escolares. Ela também se transmite através dos símbolos, cerimónias, tradições e emoções partilhadas. Basta observar o que aconteceu durante a épica dos Tubarões Azuis na Copa do Mundo 2026.

Durante algumas semanas, o país inteiro vibrou em uníssono, como um corpo só. As ruas e as viaturas estavam cheias de bandeiras. As redes sociais transbordaram de mensagens patrióticas. A diáspora sentiu um sentimento de pertença raramente igualado. As diferenças políticas desapareceram temporariamente atrás do mesmo orgulho nacional.

Esta mobilização demonstrou uma coisa essencial: o patriotismo cabo-verdiano continua a existir. Só precisa de ser despertado. Por que, então, não encontramos essa mesma energia a 5 de julho? Por que reservar essas demonstrações de orgulho somente para um evento desportivo, por mais excecional que seja, quando a nossa independência constitui mesmo o alicerce da nossa existência como Estado soberano e por consequência, dos Tubarões Azuis?

Nessa logica, pergunto qual é o interesso em criar um dia dedicado aos feitos dos Tubarões Azuis, como proposto pelo 1º Ministro. O calendário nacional não precisa de multiplicar as datas simbólicas. Precisa de devolver todo o sentido àquela que supera todas as outras, assim como a todas as datas que marcaram a nossa história.

O dia 5 de julho deveria tornar-se a Grande Festa de todos os cabo-verdianos. Um dia em que cada município organizaria atividades culturais, concertos, exposições históricas, competições desportivas, festival de gastronomia, cerimónias de cidadania para os jovens, encontros entre gerações, espetáculos, fogos de artifício e iniciativas envolvendo a diáspora. O Governo inauguraria grandes obras e anunciaria importantes medidas e políticas publicas. Um dia em que as crianças perceberiam porque é que a sua bandeira existe, essa bandeira que os Tubarões azuis devolveram a populações e as diásporas. Um dia em que os mais velhos transmitiriam as suas memórias. Um dia, somente 24 horas, em que as divisões políticas se apagariam perante aquilo que nos une. 24 horas a sonhar como John Lennon, no seu eterno IMAGINE.

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Comentários

jcf
5 dias atrás 7 horas atrás

Meu caro, o teu texto é um belo exercício de contorcionismo: começa a falar de justiça social, passa pela “racionalidad ...

Soares
23 dias atrás

Pobresa , palavra que precisa sair nosso dicionário.

Miranda
27 dias atrás

Boa sorte

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