domingo, 01 novembro 2026

I Internacional

QUEM É ALEXANDRE DUGIN, O FILÓSOFO DE PUTIN QUE DEFENDE UM IMPÉRIO DE LISBOA A VLADIVOSTOK

Ganhou notoriedade entre vários membros do núcleo duro da elite russa e considera a soberania da Ucrânia um perigo existencial para a Rússia.

ALEXANDRE DUGIN, cuja filha foi morta ontem num atentado de que era o avisado (ver este jornal), é um dos mais importantes pensadores políticos russos da atualidade e vê na soberania da Ucrânia um dos maiores obstáculos ao sucesso das suas teorias políticas. Toda a influência que conquistou valeu a Aleksandr Dugin, de 60 anos, a alcunha de “cérebro de Putin”, embora se desconheça a profundidade da relação entre os dois.

Dugin foi dissidente político da era soviética, que ganhou notoriedade entre vários membros do núcleo duro da elite russa. Apregoador de um império eurasiático, de Lisboa a Vladivostok, há quem aponte o filósofo como um saudosista da Rússia dos czares.

“Aleksandr Dugin é o atual ideólogo russo. Anteriormente era Lev Gumilev. No fundo, consideram que a Rússia não é europeia nem asiática e que, por isso, deve desligar-se da Europa, afirmando-se como uma grande potência do espaço eurasiático”, explica à CNN Portugal o major-general Agostinho Costa.

Os ideais de Dugin assentam na teoria política de Carl Schmitt, filósofo alemão, que divide as grandes potências em poderes terrestre e marítimo, com culturas e formas de estar completamente antagónicas e destinadas a colidir. Nesse sentido, Dugin acredita que a Rússia necessita de alcançar a expansão, caso contrário enfrenta o colapso, uma vez que não conseguirá fazer frente à grande potência naval dos Estados Unidos da América.

Segundo a tese de Schmitt, as sociedades com base no poder terrestre são mais conservadoras e viradas para as tradições sociais, ao contrário do poder marítimo, que representa sociedades mais abertas, baseadas na racionalidade, individualismo e inovação. Dugin apresenta as suas teses políticas como uma forma de sustentar filosoficamente o combate ao globalismo, uma forma de organização que, no seu entender, coloca em causa a ascensão da Rússia enquanto grande potência.

“Há um plano ideológico. Hoje a ideologia é, fundamentalmente, cultural. Com Dugin passou a existir um eurasianismo exacerbado que nos deve levar a compreender que o que está em causa não são visões de caráter político, mas sim visões antagónicas de caráter cultural”, sublinha o comentador da CNN Portugal.

A pegada ideológica do pensador político não é nova. Em 1997, Dugin já descrevia a soberania ucraniana como “um enorme perigo para a toda a Eurásia”. Em 2013 apelou publicamente às forças pró-russas na Ucrânia para se revoltarem contra o que dizia ser “um golpe de Estado” levado a cabo pelos Estados Unidos no país, que ameaçava abertamente a sua visão do Eurasianismo. Esse é o único caminho para atingir aquilo que considera ser a “restauração da Grande Rússia”, numa “União Eurasiática”.

“É um ultranacionalista, amigo de Putin. É uma pessoa de relação próxima. Estas ideias de Dugin inspiram a política de Vladimir Putin. Dugin referiu que a operação na Ucrânia é um exorcismo e que a Rússia está a tirar o diabo da Ucrânia.”, destaca Agostinho Costa.

Ainda em 2014 desdobrou-se em tentativas de recrutar combatentes para lutar nas regiões separatistas da Ucrânia. Esse seu papel enquanto impulsionador das hostilidades na Ucrânia levou a que os Estados Unidos o sancionassem um ano depois dos confrontos terem começado na região do Donbass, em 2015.

Mas Aleksandr Dugin tem sido crítico da “operação militar especial” levada a cabo por Vladimir Putin, uma vez que considera que a Rússia deve declarar guerra à Ucrânia e decretar a mobilização geral da população e conquistar a capital ucraniana. Para o filósofo, a Rússia não terá hipóteses de sair vitoriosa contra a Ucrânia e os vários países que apoiam o governo de Kiev a menos que toda a sociedade russa seja mobilizada a contribuir para o esforço de guerra.

Foi precisamente isso que escreveu no sábado, no seu canal no Telegram, um dia antes de marcar presença no festival “Tradição”, juntamente com a sua filha. Para Dugin, a Rússia “desafiou o Ocidente enquanto civilização” e isso, sublinha, “significa que a Rússia deve ir até ao fim”. Poucas horas depois, à saída desse mesmo festival, a sua filha, Darya Dugina, acabaria por perder a vida ao entrar no carro do pai, que terá sido armadilhado com explosivos que, alegadamente, se destinariam ao filósofo.

Darya Dugina, de 30 anos, estava ligada a grupos da extrema-direita russa e apoiava publicamente as teorias do pai, chegando mesmo a ir à televisão estatal russa defender a “operação militar especial”. Um dos últimos registos da jovem nas redes sociais foi numa visita ao complexo industrial de Azovstal, onde, durante dois meses, as forças militares ucranianas defenderam-se contra o cerco das tropas russas.

Em março, após o início da guerra na Ucrânia, Darya passou a fazer parte da lista de indivíduos sancionados pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido, devido ao papel do seu site na “disseminação de desinformação”. A Semana com CNN Portugal

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Comentários

joão do rosário
COM_RSCOMMENTS_NUMBER_OF_MONTHS 24 dias atrás

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jcf
COM_RSCOMMENTS_NUMBER_OF_MONTHS 26 dias atrás

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joão do rosário
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